Público - 07 Jul 08

 

Um mal-estar bem para além da crise económica
José Manuel Fernandes

 

Nunca se disse com toda a clareza que não era só ao Estado que faltava dinheiro, era também a um país que não tem deixado de perder competitividade

 

Talvez já seja tempo de acabar com as sessões de psiquiatria a propósito do estado de depressão ou euforia do país. Talvez já seja tempo de perceber por que motivos se começou a respirar no país um ar muito distinto do que se respira nos gabinetes governamentais.

 

É certo que estalou uma crise económica internacional, a primeira realmente importante desde a recessão conhecida nos primeiros anos da década de 1990. Mas ela está longe de explicar tudo, até porque ainda não vivemos uma situação de recessão a nível internacional. Mais: quando o país passou por essa primeira crise, no final do chamado "cavaquismo", não se falou nem de depressão, nem se espalhou o ambiente fatalista que hoje vivemos.

 

O aumento do preço do petróleo afecta os consumidores, todos os consumidores e não apenas os automobilistas ou os que têm de utilizar transportes cujas tarifas foram actualizadas. O aumento das taxas de juro também afecta milhões de portugueses, quer por pesar na carteira das famílias sobreendividadas, quer por dificultar o recurso ao crédito e, assim, tornar mais difícil investir. E sem investimento privado não há desenvolvimento económico.

 

Mesmo assim estas circunstâncias, que se foram tornando evidentes para todos nos últimos meses, não podem explicar a sensação de desconforto que vinha de antes. E para essa sensação temos de encontrar explicações que ultrapassam a esfera da economia, ou do dinheiro que sobra no fim do mês, até porque o recurso ao crédito (de forma muitas vezes irresponsável) tem permitido que muitos adiem a mudança de estilo de vida.

 

O que se passa é mais profundo e mais complexo. E envolve a relação da sociedade com as suas elites, em especial as elites políticas no poder.

 

Na verdade, quando, há três anos, este Governo tomou posse, existia no país a convicção de que "alguma coisa tinha de ser feita". E inicialmente assim sucedeu, só que o impulso inicial começou a esmorecer quando o descontentamento dos afectados começou a aumentar e deixou de funcionar a retórica do ataque "aos privilégios". O aperto do cinto foi indiscutível: subiram os impostos, diminuíram muitas prestações sociais, aumentou o desemprego, apertaram-se os sistemas de vigilância que, depois de terem sido bem recebidos (caso do combate à fraude fiscal e da ASAE dos primórdios), foram sendo palco de abusos e excessos, o Estado dirigista tornou-se ainda mais pesado, inclusive dentro das empresas privadas, e as diferentes "compensações sociais" foram sempre curtas e deixaram quase sempre de fora a classe média.

 

Quando se esperavam alguns resultados, eles não vieram. Por causa da crise internacional? Não. Antes de ela se tornar evidente já começara a derrapagem. Os sinais de recuperação da economia nunca chegaram a ser vigorosos e o que no início foi sendo aceite como sendo sacrifícios inevitáveis, a pouco e pouco começou a ser pior compreendido. O discurso da autoridade e da luta contra as iniquidades deu lugar a uma mistura de arrogância tonitruante e cedências mal explicadas. Foi-se instalando o pior dos sentimentos: o de que se fizera sacrifícios para nada ou muito pouco.

 

Esta situação foi acompanhada pela crescente percepção que havia um mundo "deles", cor-de-rosa, protegido, radioso, e um mundo onde a vida se ia tornando mais complexa sem que os diferentes poderes oferecessem perspectivas de saída. Um dos exemplos mais cristalinos de que há um mundo de ficção e propaganda e um mundo real acaba de ser dado com o "milagre" das notas nos exames de Matemática, um "milagre" que revela antes do mais que há sempre quem seja demasiado zeloso e mais papista do que o Papa: o exagero de "evolução" da sapiência dos estudantes acabou por colocar a nu a grosseria da manipulação.

 

Ao mesmo tempo, os portugueses olhavam em volta e desesperavam. As muitas embrulhadas em que se meteram algumas das grandes empresas portuguesas, a mistura de interesses e cumplicidades com o poder político e a forma como alguns deliberavam sobre a sua própria remuneração contribuiu para criar uma sensação de que havia "os de cima" e "os de baixo" a um ponto que não se via desde os tempos da revolução. E, como se isso já não fosse suficientemente mau, o facto de não ter existido (e veremos se passou a existir) uma oposição consistente agravou a sensação de desamparo e de estarmos num beco sem saída. O refúgio, o único refúgio, era o protesto e os partidos de protesto, por enquanto generosamente tratados nas sondagens.

 

É por isso que a nossa crise é muito mais do que económica e os nossos actuais problemas não são apenas uma consequência da crise internacional. Ou que o que está a acontecer aos planos de Sócrates não representa qualquer "injustiça" derivada da imprevisibilidade dos mercados financeiros. O mal é e sempre foi mais profundo: nenhum país pode estar bem consigo quando fica para trás, apesar de todos os fingimentos; nenhuma economia familiar resiste quando se chegou a um ponto em que a dívida externa do país já equivale à totalidade do que produzimos num ano. Ora se aqui chegámos não foi nem por causa da subida do petróleo, nem da crise do subprime: foi porque nunca se disse com toda a clareza que não era só ao Estado que faltava dinheiro, era também a um país que não tem deixado de perder competitividade e que não a ganhará com estatísticas forjadas na secretaria.