Jornal de Negócios online - 07 Jul 08

 

O país dos efeitos especiais
Fernando Sobral

 

Este não é um Governo de meninos de ouro. É, quanto muito, de Peter Pans. Não cresce, vive no mundo do faz de conta. Durante algum tempo fez de conta que era reformista. Depois tentou fazer de conta que era conciliador. Agora chega-se à conclusão que é simplesmente um alquimista de ilusões. Os efeitos especiais sempre foram a linha de força deste Governo.

 

Por isso Sócrates tem um tão grande fascínio pela tecnologia: ela consegue tornar o irreal, a mais pura das realidades. Só que agora começam a ser visíveis os seus defeitos especiais. José Sócrates foi à televisão dizer que ajuda os velhos pobres, mas ignora os novos pobres, fruto da destruição acentuada do grupo social que sempre foi o sustentáculo dos Governos do Bloco Central: a classe média. Tira da manga o trunfo da baixa do IMI, quando não é o poder central que o efectua, mas sim as câmaras que vão ter de se debater com a quebra das receitas. O optimismo de Sócrates não é o de um menino de ouro: é o de um menino que consegue dizer que o chumbo é ouro. Não está só: a própria política dos seus ministros é a de um conto de fadas na Terra do Nunca. Tudo soa a um sonho de Cinderela, com a pequena diferença que os sapos rotos não cabem nos pés com meias esburacadas. Manuel Pinho vê o que mais ninguém vislumbra: a baixa dos preços alimentares que, como não são taxados a 21% de IVA, não podem descer. É assim, que no Portugal de Peter Pan, se acredita em coisas que não acontecem. Sócrates articula sonhos em público. E chama a isso, optimismo.