Jornal de Negócios online - 02 Jul 08

 

"Portugal está confrontado de novo com a recessão"

 

O economista Daniel Bessa defendeu ontem que "vai ser muito difícil Portugal sair de um crescimento anual médio de 1,5 nos próximos dez ou 15 anos" e que o País "está confrontado de novo com a recessão".

 

O actual director da Escola de Gestão do Porto, que foi ministro do primeiro governo de António Guterres, foi o conferencista convidado de mais uma edição dos Encontros Millennium bcp, desta feita realizada no Porto, no edifício da Alfândega.

 

Perante uma plateia constituída por muitas centenas de empresários e gestores, Daniel Bessa centrou a sua intervenção sobre a crise actual e as suas repercussões na economia portuguesa.

 

"Sinto-me, perante o que se está passar no mercado de capitais e na economia em geral, como qualquer ser humano perante uma grande tempestade", disse logo a abrir, tendo como pretexto próximo a queda de quase cinco por cento verificada hoje na bolsa portuguesa.

 

Daniel Bessa não tem grandes ilusões: "A coisa transcende-nos absolutamente e sentimos que somos capazes muito pouco, se alguma coisa".

 

Se os presentes esperavam ouvir da sua boca uma data previsível para o fim "tormenta" que se abateu sobre a economia nacional e internacional, Bessa desiludiu-os: "Não sei quando vai acabar".

 

A inflação preocupa-o. Em sua opinião, "não é um disparate" se o Banco Central Europeu (BCE) voltar a subir as taxas de juro, tal como alguns receiam e muitos contestam. "Espero que o BCE não prescinda de controlar a inflação e os preços. Acho que faz bem se subir as taxas de juro", declarou.

 

O Professor entende também que "estas são também épocas de grandes oportunidades" para empresas capazes de se expandir. Para tal, é preciso ter "robustez financeira" e ser-se "atrevido", resumiu.

 

Daniel Bessa voltou a criticar "as estratégias de crescimento puxadas pelo consumo", que, no seu entender, são "um caminho para o desastre". Lembrou, a propósito, que foi esse o modelo que Portugal adoptou nos anos 90 do século passado, "em particular na segunda metade".

 

Mas pior do que o caso português, prosseguiu, "é o modelo espanhol", que se prolongou por mais anos.

 

"Aquilo só podia acabar mal", sublinhou, numa referência à travagem brusca que a economia espanhola está a sofrer, e que ele, aliás, prognosticou semanas atrás noutra sessão destes Encontros Millennium bcp.

 

"Quero ver agora como é que a economia espanhola vai recuperar e quantos anos vai tardar", comentou.