Diário de Notícias - 14 Jul 06

Cavaco apela a cuidados no divórcio

Elsa Costa e Silva

O Presidente da República (PR) lançou ontem um alerta sobre os riscos das crianças que vivem em famílias monoparentais, alertando os pais para que o processo de divórcio não ponha em causa o bem estar dos filhos. Considerando que é a "desagregação da estrutura familiar" que mais coloca as crianças em situação de fragilidade, Cavaco Silva, no final da segunda jornada do Roteiro para a Inclusão, lembrou que o risco de pobreza dos menores é o dobro em famílias monoparentais do que na "família natural".

Não houve uma defesa da família convencional no pequeno discurso que o PR fez em Oliveira de Azeméis, na visita ao Centro de Apoio Familiar Pinto de Carvalho, até porque, disse, "não podemos criticar o desejo das pessoas viverem a felicidade". Contudo, alertou o Chefe de Estado, "há que chamar a atenção para que não o façam à custa da infelicidade dos seus filhos". Assim, a sua intenção, esclareceu depois, foi pedir aos pais, durante um divórcio, que "pensem também nas crianças".

Crianças que são, não se cansou de repetir Cavaco Silva, o futuro do País e o "activo mais precioso" da sociedade. Nas visitas aos centros de acolhimento de menores em risco, o PR assinalou que a realidade ali expressa, a dos maus-tratos ou negligência, não pode ser ignorada. E elogiou o trabalho das instituições, como a de Oliveira de Azeméis, onde duas internas, de 14 e 16 anos, ofereceram à Primeira Dama um ramo de mais de 50 rosas, uma flor por cada criança ali a viver, algumas há muito tempo. A jovem de 16 anos, internada há cinco com mais duas irmãs, "gosta" do centro e, tendo transitado para o 11º ano, continua a acalentar um sonho: o de ser enfermeira.

Um dos objectivos que Cavaco Silva traçou para esta jornada foi a de "destacar o papel da família no desenvolvimento harmonioso da criança". Sendo certo que os pais biológicos são os mais adequados, voltou a frisar o PR, é preciso, contudo, agilizar os processos de adopção quando esse meio não é funcional. E importante ainda nesta jornada foi "alertar a consciência dos portugueses para o número de crianças maltratadas".

No balanço que fez a estes dois dias, passados nos distritos do Porto e de Aveiro, dedicados às crianças em risco e às mulheres maltratadas, o PR fez ainda um pedido para que a violência doméstica seja denunciada. "Apelo a que não se silencie, como aconteceu no passado, estas situações de agressão doméstica". As homenagens às vítimas - como que Cavaco Silva fez no Marco, quarta-feira - são importantes, "mas isso não nos pode levar ao silêncio".

E a denúncia cabe a todos: "Não olhem para o Estado, esperando que ele faça tudo", afirmou o Chefe de Estado. Até porque "as instituições desenvolvem geralmente um trabalho mais humano, mais próximo, mais eficiente nas respostas que dão aos problemas da sociedade".