Correio da Manhã - 29 Jan 07

 

Movimentos desfilam em Lisboa
Milhares em caminhada pelo não

Janete Frazão

 

A ‘Caminhada pela Vida’, uma marcha pelo ‘não’ ao referendo à interrupção voluntária da gravidez que se realizou ontem à tarde em Lisboa, juntou milhares de pessoas – 9500 segundo a PSP, 20 mil segundo a organização – que durante duas horas e meia não se cansaram de entoar canções e fazer rimas “a favor da vida”.

 

A Maternidade Alfredo da Costa foi o ponto de encontro para associações e movimentos cívicos pelo ‘não’, aos quais se juntaram centenas de pessoas dispostas a fazer frente à despenalização do aborto. “Estamos aqui porque queremos mostrar que vale a pena viver, aprender a amar”, disse Sofia Guedes, promotora da iniciativa.

A caminhada foi dividida em sete etapas, que representavam as sucessivas fases da vida, desde a concepção à terceira idade (ver texto ao lado). Quilómetro após quilómetro, os apoiantes do ‘não’ fintaram o frio com efusivos cânticos e dizeres. ‘Viva a vida!’, ‘Aborto por opção quando bate um coração, não!’, ‘A vida é bela, não podemos dar cabo dela’, foram algumas das frases que se fizeram ouvir ao longo do trajecto.

Na fila da frente destacavam-se o líder do CDS-PP, Ribeiro e Castro, o deputado Paulo Portas, os ex-ministros Bagão Félix, Pedro Aguiar Branco e Ernâni Lopes, a fadista Katia Guerreiro, as actrizes Glória de Matos e Ana Brito e Cunha, a escritora Rita Ferro, Maria José Nogueira Pinto e D. Duarte, que não quiseram deixar de se associar a esta marcha.

“Só precisamos de um Estado, um Governo que corresponda, que faça políticas familiares avançadas, que responda aos casais que querem ter filhos e não podem”, defendeu Ribeiro e Castro. Por sua vez, Maria José Nogueira Pinto, vereadora da Câmara de Lisboa, afirmou: “É em nome da vida, que ainda não tem voz, que estamos aqui.”

Não passaram igualmente despercebidos os cerca de duas dezenas de apoiantes do Partido Nacional Renovador, que apesar de serem poucos deram nas vistas ao serem relegados pela organização para a cauda da marcha. “Disseram que não éramos bem-vindos. Somos pelo ‘não’ e rejeitam-nos” lamentou o líder, José Pinto Coelho. “A política e a ideologia que eles defendem não tem nada a ver com esta iniciativa”, justificou a organização.

Terminada a caminhada, junto a um palco erguido em frente à fonte Luminosa, na alameda Afonso Henriques, as palavras de ordem deram lugar a discursos. “Defender a vida é uma causa sem fim e nada nem ninguém nos faz parar”, disse Margarida Neto da ‘Plataforma Não Obrigada’, merecendo os aplausos dos milhares de manifestantes presentes. Também representantes de movimentos contra o aborto de Espanha, França e Itália tiveram a palavra.

O saldo final, segundo a organização, foi “muito positivo”. E apesar do esforço, o ‘sim’ não conseguiu manchar a iniciativa, com algumas das inscrições que imprimiu ao longo do alcatrão que traçou o percurso do ‘não’ – ‘Sim, pela saúde da Mulher’, ‘Dia 11 Vote Sim’, ‘Caminhada pelo aborto clandestino’. Um pequeno acidente de percurso que não roubou a voz a quem ali foi “defender a vida”.

SETE FASES

A Caminhada pela Vida fez-se em sete fases que pretendiam simbolizar as diferentes etapas da vida:

- concepção (Maternidade Alfredo da Costa)

- nascimento (Praça Duque de Saldanha)

- infância (Avenida Praia da Vitória)

- adolescência (Avenida do México)

- juventude (Praça de Londres)

- idade adulta (Avenida Guerra Junqueiro)

- avós e bisavós (Avenida Guerra Junqueiro)

OUTROS DADOS

SESSENTA MIL

Cerca de 60 mil pessoas, o equivalente à população do concelho de Santarém, vão estar envolvidas nas mesas de votos. A votação vai decorrer entre as 08h00 e as 19h00 em 12 000 a 12 500 mesas de voto. As câmaras fixam os números.

QUEIXA À CNE

O ‘Movimento Voto Sim’ anunciou ontem que vai apresentar uma queixa à Comissão Nacional de Eleições (CNE) contra a colocação de cruzes iguais às dos cemitérios em rotundas da Covilhã, com a inscrição ‘vítima de aborto’.

ALERTA

Quase metade das gravidezes não estão datadas, o que torna difícil definir o prazo para a despenalização, afirmou o director do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital de S. João, no Porto, noticiou ontem a Rádio Renascença.

AGENDA

Hoje

21h00 - Biblioteca Municipal de Oeiras

A Assembleia Municipal de Oeiras realiza um debate público. Foram convidados todos os movimentos registados na Comissão Nacional de Eleições.

21h30 - bombeiros voluntários de famalicão

A dirigente nacional Maria de Belém está presente num plenário de militantes do Partido Socialista em defesa do ‘sim’.

PORQUE...

O CM mostra-lhe os argumentos de figuras públicas a favor e contra a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas.

NÃO

“A lei actual é justa e razoável” (Mota Soares - CDS-PP)

“O que está em causa é a liberalização total do aborto, a possibilidade de fazer um aborto sem qualquer espécie de motivo, fundamento ou justificação. A lei actual já é justa e razoável nas excepções que contempla. Fará sentido ir mais longe? Acho que não.”

SIM

“Ainda não é um ser com vida” (São José Lapa - Actriz)

“Às dez semanas o feto ainda não é um ser humano com vida, não sente, não tem dor. Por isso, cabe à mulher, com a sua inteligência e sensibilidade, decidir o que fazer. Um ser para nascer tem de ser altamente desejado.”