Correio da Manhã  - 19 Jan 07

 

Sexo e Mentiras
 

No princípio era o sexo. Íntimo. Bom. Romântico. Despreocupado. Caloroso. Relaxante. Ou nada disto. Alimento da alma ou escravo dos instintos. Mas sempre senhor absoluto de todos os adjectivos. E velho conhecido de todos nós. 

 

Nasce connosco e connosco vai para a cova. É o companheiro de todos os dias, disse-o o velho Freud. Manipulador e conhecedor dos nossos apetites e fraquezas está sempre disposto a surpreender-nos. 

 

Depois... Depois passa a ser, para uns, uma saborosa recordação. 

 

E, para outros, a gravidez indesejada, o aborto e, 'last but not least', as doenças sexualmente transmissíveis. O pesadelo. Mas porque se fala tanto de aborto e tão pouco destas doenças que nunca mereceram a atenção calorosa e a militância que vemos, agora, suscitar tão grande empenhamento de amigos e inimigos da liberalização do aborto? 

 

O sexo não tem nenhuma maldição como pensam, ainda, os mais reaccionários e conservadores. Somos nós que o amaldiçoamos todos os dias pelo uso apressado e leviano que dele fazemos. Como se fosse um produto descartável e tudo acabasse, muito profilacticamente, com a euforia do orgasmo. O mal, quer na gravidez indesejada quer na transmissão do VIH e seus parentes menores, reside precisamente numa mesma atitude de ignorância e falsa despreocupação face à realidade. À difusão dos meios de combater as possibilidades de eles se insinuarem. Para que o sexo continuasse a ser sempre bom e não passe a ser visto como uma ameaça. 

 

Neste mundo ameaçado pelo vírus do VIH (até nos continentes e países mais desenvolvidos), dá que pensar a preocupação dos adeptos da liberalização (e os da não liberalização, a reboque) pelo desfecho do referendo, como se tudo se acabasse a 11 de Fevereiro. 

 

Os esforçados sapadores desta peculiar guerra estão no terreno 24 horas por dia, a minar os campos dos adversários. E dispostos a tudo. Até a esquecer o que é essencial. É o seu jogo da glória. A sua guerra particular. E na guerra vale tudo. 

 

Radicalizam-se os discursos. 

 

Chegam os eufemismos, os exageros e as piores mentiras. É a contra-informação no seu melhor. Como se lutássemos pela salvação do mundo ou das nossas almas. Nesta frágil campanha é proibido falar de educação sexual, de apoio sério à maternidade, de esclarecimento sobre a efectividade dos muitos métodos contraceptivos e de planeamento familiar sem se correr o risco de ser apontado como querendo a continuação da penalização do aborto. A desvergonha é total. 

 

O PS e os partidos de esquerda já deixaram cair a máscara. Confessam que a derrota do 'sim' será a derrota dos seus próprios partidos. Não precisavam, meus caros senhores. Todos sabemos que o vosso objectivo nunca foi praticar a caridade social. Foi politizar, indignamente, o que pertence a um foro com uma dignidade que a política perdeu há muito tempo. 

 

P.S. - Quarta-feira, na AR, num encontro de velhos amigos, todos a abanar as cabecinhas como os velhos marretas, uma senhora procuradora revelou a sua lancinante preocupação com a corrupção ligada ao aborto clandestino. E parece que ninguém se riu. 

 

Mas eu, confesso, não resisti. Agora sim, não ficará pedra sobre pedra e vamo-nos tornar definitivamente um País de santos.