Público  - 17 Jan 07

 

A educação na Índia e Portugal
Rahool Pai Panandiker

 

O "sucesso" do sistema educativo indiano é fruto do acesso livre e obrigatório à educação, da alteração paradigmática sobre valor de educação e da simples vontade e empenho do estudante médio indiano

 

Não é raro (até está em voga) falar-se do fenómeno da "Índia brilhante" e por conseguinte é habitual que eu, enquanto indiano, seja confrontado com perguntas acerca da Índia dos nossos dias: o ressurgimento económico, a questão das castas, os acordos sobre energia nuclear, o fanatismo religioso e o sistema educativo. O que é que faz a Índia funcionar e como participamos neste funcionamento? Nestas e em muitas outra circunstâncias, recorro mais à minha formação e experiência algo peculiares do que a visões académicas da Índia ou a visões correntemente institucionalizadas.
É impossível descrever o sistema indiano em poucas linhas. Farei, contudo, um comentário acerca de um sector que não só me é caro, mas em que trabalhei durante muitos anos - o da educação. Neste momento, por exemplo, o estado de Goa apresenta indicadores bem superiores aos de Portugal no sector educativo: as taxas de abandono e de alfabetização estão ombro a ombro com as melhores da OCDE, enquanto Portugal está claramente atrás.
Há, no entanto, muito de mito, pompa e circunstância associado aos "mais altos" níveis de educação da matemática e das ciências no contexto indiano e a isso ser tomado como explicação para o ressurgimento actual da Índia. Em contrapartida há três factores que sistematicamente têm contribuído para este resultado.
Primeiro, a educação nos níveis primário e secundário foi tornada acessível, mesmo nas aldeias mais remotas, de modo gratuito e obrigatório. Dado este facto, as leis de probabilidade numa população de 1,3 biliões ajudam a criar uma vasta massa de potenciais cientistas e engenheiros.
Segundo, há uma mudança paradigmática e consideravelmente mais optimista na mentalidade do indivíduo de que a educação é realmente a via para um futuro melhor. Esta mudança não deve ser menosprezada, na medida em que ela constitui uma enorme força mobilizadora para a performance e excelência. Os pais da crescente população indiana da classe média, actualmente em 350 milhões de pessoas, transmitiram valores de sacrifício orientados para a educação dos seus filhos, apostando mais nesta "lotaria educativa" do que em qualquer outra.
Terceiro, trabalho árduo permanente. O estudante indiano médio "bem sucedido" ao entrar no famoso IIT (Indian Institute of Technology) poderá gastar 14 a 16 horas por dia a estudar durante um a dois anos, antes de fazer a prova geral de acesso para as instituições de referência. Este é um argumento não muito diferente dos modelos darwinianos - sobrevivência dos mais aptos. Estas instituições e muitas outras estão fornecidas com estudantes de primeira qualidade - inteligentes, trabalhadores e com vontade de desafiar o mundo e logo necessitam pouco de "tratamento".
Não há explicações milagrosas. O "sucesso" do sistema educativo indiano é fruto do acesso livre e obrigatório à educação, da alteração paradigmática sobre valor de educação e da simples vontade e empenho do estudante médio indiano.
Tenho estado ligado a muitas instituições de educação em Portugal. À parte certos aspectos de eficiência que clamam por resolução urgente, tenho encontrado no sistema estudantes e profissionais da mais alta qualidade. Realizei o meu MBA em Portugal e creio que o seu padrão de exigência está a par dos melhores cursos congéneres à escala global. Não há diferença, à superfície, entre o que considero as melhores instituições em Portugal e na Índia. Há, porém, uma ainda arreigada tendência portuguesa para culpar o sistema, para lhe atribuir a responsabilidade por inteiro de nos "educar" e depois de nos "empregar". Aí está a diferença.
A disposição para deixar a tendência sistemática no sentido de culpar o sistema educativo e para assumir a responsabilidade no plano individual e social constitui um factor chave que move os indianos. Isto, apesar de o sistema educativo na Índia ainda ficar com muito do crédito pelo dinamismo e capacidade de luta e motivação do indiano médio. Natural de Goa, membro do The Boston Consulting Group e um dos responsáveis pela concepção do site da Presidência dedicado ao acompanhamento permanente da visita de Cavaco Silva à Índia