Diário de Notícias - 9 Jan 07

 

A aposta com Rolo Duarte

Pedro Vassalo

 

Há anos que Pedro Rolo Duarte é um jornalista conhecido. E justamente, porque Rolo Duarte tem sido responsável por projectos interessantes e inovadores no jornalismo. Daí a minha surpresa com a ligeireza do seu último editorial / opinião que escreveu no DN. Porque entre os argumentos (não o único) utilizados por Rolo Duarte para suportar a sua decisão de votar SIM, no referendo ao aborto, houve um que enfatizou e, sem querer afirmar que é falso, é pelo menos discordante com a verdade. Escreve Rolo Duarte que pouco ou nada mudou desde o último referendo e que os defensores do NÃO, após a vitória, meteram a viola no saco e foram à sua vida calma e supostamente serena. A expressão é minha.

Ora a este propósito conto uma história com um antigo colaborador do DN, Óscar Mascarenhas. Numa tarde de conversa com o Óscar, um votante SIM, argumentava ele que os apoiantes do NÃO, uma vez ganha a votação, iriam à sua vida e que tudo, afinal, voltaria à estaca zero. Numa palavra as mães desamparadas, as famílias desagregadas e sem apoios, os casos dramáticos e as situações limites para os quais a sociedade não tem resposta continuariam, sem que os apoiantes do NÃO, aconchegados nas suas casas e nas suas vidinhas, mexessem uma palha.

No fundo, uma ideia que Rolo Duarte agora, de alguma forma, subscreve.

A partir desta conversa com o Óscar saiu uma aposta…interessante. Apostámos, que independentemente do resultado do referendo, o DN fizesse uma reportagem, um ano após o referendo, sobre os movimentos que estavam a debater o assunto. A aposta consistia em perceber em que medida os movimentos, tanto do SIM, como do NÃO, naquele ano, e esquecido que foi o calor do debate, teriam feito, de facto, alguma coisa para ajudar quem precisa.

Eu ganharia se os movimentos do NÃO, na generalidade, não tivessem desaparecido do mapa, como previsto, mas construído qualquer coisa de sólido e de apoio, efectivo, às mães e famílias necessitadas. Caso contrário, perderia.

Passados 12 meses sobre o referendo, relembrei ao Óscar a nossa aposta. O Óscar cumpriu e escreveu uma peça no DN. O Pedro Rolo Duarte poderá consulta-la nos arquivos. Mas posso adiantar, desde já, que o Óscar perdeu. Nos últimos anos foram aos milhares as mães e famílias que os movimentos do NÃO, efectivamente, apoiaram. Há centenas de crianças, hoje vivas, graças a estes movimentos, suportados quase exclusivamente por voluntários, quase os mesmos que são acusados de tudo e um par de botas.

Mas faço com o Rolo Duarte uma outra aposta: que venha visitar estas instituições, converse com as mães, brinque com aquelas crianças e que faça então o seu juízo e publique o que encontrou. E aí verá que muita coisa mudou. Talvez pouco. Talvez seja insuficiente. Talvez. Mas quando falar com uma qualquer daquelas crianças verá, que para ela, para aquela criança em concreto, muita coisa mudou. Está viva, brinca, ri e chora, tem amigos e, afinal, poderá ser tão feliz como o Pedro Rolo Duarte é.