Público- 07 Jan 07

 

Médicos alemães negam ter havido baby boom no início do ano

Catarina Gomes

Subsídio de incentivo à natalidade entrou em vigor no primeiro dia de Janeiro. O apoio prolonga-se
por um período de 12 ou 14 meses. E pode chegar a 1800 euros por mês

Durante o parto, Julia Gotschlich só pensava: "Aguenta-te, aguenta-te, aguenta-te." E o bebé parece ter ouvido o apelo: Inka Angelina nasceu quando passava uma hora do dia 1 de Janeiro de 2007. Já Jessica Koch teve o pequeno Nicolas muito antes do que estava planeado e ainda a 31 de Dezembro. O facto de ser um bebé saudável serve-lhe de consolo.
O que distingue estas duas mães alemãs é que Julia vai receber do Governo alemão 10 mil euros e vai poder ficar em casa durante um ano a acompanhar o filho. Jessica, porque teve o bebé ainda em 2006, não vai ter direito a este benefício e apenas receberá apoio durante oito semanas.
O subsídio em causa, criado pelo Governo alemão para incentivar a natalidade, entrou em vigor no primeiro minuto do dia 1 de Janeiro. Prolonga-se por 12 ou 14 meses e pode chegar a 1800 euros por mês.
Klaus Grunert, um médico de um hospital de Berlim, contou à Associated Press que ouviu relatos de várias mulheres que tentaram de tudo para atrasar os partos, desde evitar qualquer tipo de exercício físico, relações sexuais, massagens - tudo o que julgavam poder acelerar o nascimento do bebé.
Os media trouxeram também histórias de mulheres que tomaram comprimidos de magnésio, indicados para evitar partos prematuros; e houve até quem tivesse desmarcado datas de cesariana no final do ano, na esperança de atrasar o parto até ao primeiro dia de 2007.
Charlotte Deppe, uma médica do hospital de Munique, contou que várias mulheres lhe pediram para adiar os partos, mas acabavam por abandonar essa ideia quando eram desaconselhadas a fazê-lo por motivos de ordem médica. Responsáveis de vários hospitais alemães negaram esta semana ter havido um baby boom nos primeiros dias de Janeiro.
Mas a Alemanha bem precisa de um baby boom. A medida que agora entrou em vigor é uma forma de combater a tendência galopante de decréscimo da população. Um estudo recente do Governo estima que em 2050 o país terá menos 16 por cento dos seus habitantes actuais - descerá de 82,4 milhões para 69 milhões. A confirmar-se esta redução, o impacto na economia e no sistema de pensões será enorme.
Cada alemã tem em média 1,4 filhos - uma das taxas de natalidade mais baixas da Europa (Portugal tinha em 2005 uma taxa de 1,47). O subsídio agora criado pretende incentivar as mulheres que trabalham a ter filhos, como já acontece noutros países europeus (ver caixa).

Responsabilidades
dos homens
Julia Gotschlich, que recuperou do seu prolongado trabalho de parto no hospital Auguste-Viktoria, em Berlim, receberá ao longo de todo este ano dois terços do seu ordenado.
Mães com ordenados mais baixos podem reclamar o salário por inteiro, até um máximo de 1800 euros por mês. O direito a este benefício (ao pai ou à mãe) pode prolongar-se por 12 meses; se os dois progenitores alternarem o período de licença podem recebero apoio monetário durante 14 meses - uma forma de incentivar mais homens a partilhar as responsabilidades.
No regime que vigorou até ao final de 2006 era atribuídio um subsídio único de 300 euros mensais a pais com carências económicas.
O bebé de Jessica Koch "veio cinco semanas mais cedo do que o previsto", disse a mãe à televisão Sat-1. Pelos seus cálculos perdeu uma média de 900 euros por mês. "Penso que haverá dias em que vou pensar: "Bolas, que jeito me davam os 900 euros"", cita a Reuters. Já houve apelos para que o regime incluísse também os bebés do final do ano mas o Governo já pôs de parte esta hipótese.