A Bola - 02 Jan 07

 

FERNANDO SANTOS  
 
A HISTÓRIA DOS FATOS QUE NÃO CHEGAVAM  
 
Santos contra a superstição  
 
Das superstições ao Apito Dourado, passando pela circunstância de ser treinador do clube de que é adepto e terminando na constatação de que para chegar ao titulo é preciso «contar» com terceiros.  
 
— Há muita superstição no futebol?  
 
— Há e não conduz a nada. Olhem, no meu primeiro ano de treinador do Estoril subimos de divisão e eu tinha o hábito de vestir sempre a mesma roupa nos dias dos jogos. Ia sempre com o meu fato e no fim da época, quase no verão, com um calor horrível, eu andava com um lato de flanela. Meti na cabeça que era aquilo que me ajudava a ganhar jogos, quando era o meu trabalho e o dos meus jogadores que o fazia. No ano seguinte tomos para a primeira divisão e perdemos os quatro primeiros jogos.  
 
No primeiro vesti um fato, no segundo vesti outro, no terceiro voltei a mudar e no quarto tive de acabar com a superstição porque já não tinha mais fatos. Faz-me lembrar aquela história do homem que estava zangado com Deus porque nunca lhe saía o euromilhões. Um dia Deus veio cá abaixo e disse-lhe, «é pá, pelo menos mete o boletim». Ora, o nosso trabalho, meu e dos jogadores, é como meter o boletim... Porque se nos sentarmos à sombra à espera que caia, não vamos a lado algum.  
 
— Ser treinador, como é o caso, do clube de que é adepto, encerra alguma diferença relativamente a experiências anteriores, nomeadamente no FC Porto e no Sporting?  
 
— Como treinador sou profissional e independentemente de ser adepto ou não, faço sempre o melhor que sei.  
 
— Que perspectivas tem para 2007?  
 
— Melhorar, melhorar sempre, não só como pessoa mas também em termos profissionais.  
 
— Acredita que ainda vai a tempo de ganhar o campeonato?  
 
— Vou trabalhar muito para isso. Mas, face à classificação, ser campeão não depende exclusivamente de mim e da minha equipa.  
 
— Apito Dourado, o que vai acontecer?  
 
— Há questões que devem ser os tribunais a decidir e fazer julgamentos na praça pública, condenando ou absolvendo, não me parece bem. Porém, de uma coisa estou certo. É um caso que quanto mais cedo estiver resolvido melhor.  
 
BREVE PINCELADA NA ACTUALIDADE BENFIQUISTA  
 
Rui Costa teve fases de sofrimento e angústia  
 
Plantel, que deseja mais curto e mais forte; definição organizativa, que urge já para os primeiros dias de 2007; e Rui Costa, uma referência do Benfica, eis alguns tópicos a que Fernando Santos não foge.  
 
— Espera um Benfica com mais definição organizativa em 2007?  
 
— Encontrei o Benfica, em alguns aspectos, claramente melhor do que eu ouvia falar.  
 
— Mas neste momento há um indefinição com que não deve ser fácil lidar no dia-a-dia...  
 
— Toda a gente pensa isso.  
 
— Menos plantel, melhor plantel, em 2007?  
 
— Já o disse muitas vezes. É incomportável trabalhar com 29 jogadores. É inevitável que isso gere insatisfação nos próprios atletas: Onze jogam, sete vão para o banco e outros onze nem convocados são. Não faz sentido. É um foco de insatisfação que gera instabilidade. Depois, em termos de trabalho quotidiano, também é mais difícil planear o treino. A propósito, há uns anos, no Estrela da Amadora, um dia cheguei à cabina e dei um papel a cada jogador, pedindo que escrevessem a equipa que entendiam seca melhor.  
 
O sultado foi: 24 jogadores, 24 equipas diferentes. Esta é a razão por que há treinador e quanto mais vasto for o plantel, pior...  
 
— Por onde deve caminhar o Benfica?  
 
— Pelo caminho da estabilidade e da qualidade, que permita conquistar títulos, de forma continuada.  
 
— É possível adquirir qualidade sem dinheiro?  
 
— Tem de se gerir bem o dinheiro e, como primeira regra, não deixar sair os melhores elementos.  
 
— O Rui Costa é o grande reforço de 2007?  
 
— Já tinha dito que o era no início da época, não só pela qualidade como jogador mas também por aquilo que pode transmitir.  
 
— Como é que o viu nesta travessia de deserto?  
 
— Teve fases de grande sofrimento e de enorme angústia, mas manteve uma vontade férrea de voltar tão depressa quanto possível à competição. Afinal, nada de estranho numa pessoa que trazia tantas expectativas e sente o Benfica como ele sente... Faço votos para que nunca mais tenha de passar por uma provação destas.  
 
— Quem é o seu interlocutor, actualmente, em termos directivos?  
 
— Neste momento com o presidente. Falamos todos os dias. Antes era com José Veiga.  
 
O LIVRO QUE LHE MUDOU A VIDA E A FORMA COMO FERNANDO SANTOS SE RELACIONA COM DEUS  
 
EM 1994, o padre Luís deu a Fernando Santos um exemplar do livro A Fé Explicada, da autoria do clérigo norte-americano. Leo J. Trese. E a vida do técnico encarnado começou a mudar, aproximando-se de Deus. Mais tarde, a presença num curso de cristandade, por altura do seu despedimento do Estoril, em 1994, acabou por consumar o clique anteriormente sentido.  
 
Foi nesse curso que lhe deram o crucifixo que o acompanha em todas os momentos. Até durante os jogos de futebol. Foi também nessa altura que lhe disseram «Cristo conta contigo» e Fernando Santos respondeu «pode contar.»  
 
— Que significa paira si a espiritualidade?  
 
— É algo que só se sente. No meu caso sinto a presença do Espírito Santo. Quando dizemos que alguém tem muita espiritualidade, tem a ver com a presença desse espírito, que nos conduz a algo em que acreditamos, que pauta a vida segundo certos e determinados princípios.  
 
— Esse sentimento altera a vida de uma pessoa?  
 
— Claro. E tem a ver com fé, que é algo em que se acredita sem se ver, ao contrário de São Tomé. Para se ter fé é preciso acreditar numa coisa que não se conhece, porque a partir do momento em que é conhecido deixa de ter sentido falar em fé. Mas quando se encontra esse caminho da fé, isso passa a pautar a nossa vida.  
 
— Ter fé é um processo evolutivo, ou pode ser um clique, um instante que tudo muda?  
 
— Ser chamado à fé pode revestir muitas formas. Há uma passagem no Evangelho, que diz que logo pela manhã estavam os trabalhadores sentados numa praça à espera que os chamassem para a labuta e afinal uns eram imediatamente convocados, outros só ao meio-dia, outros à tarde e outros à noite e no fim todos recebiam por igual. Eu interpreto essa passagem como as diferentes vias de chegar à fé. Há quem tenha sido baptizado e nunca tenha andado afastado da igreja, outros só mais tarde é que regressaram aos caminhos da fé e outros ainda só já na idade adulta receberam o baptismo.  
 
— Como foi o seu caso?  
 
— Foi um caso de clique. Como quase todos os miúdos do meu tempo fui baptizado, andei na catequese, fiz a primeira comunhão, fui crismado e depois... desliguei.  
 
Dediquei-me aos estudos, ao futebol e a fé ficou, de algum modo, de lado, embora nunca tenha deixado de agradecer, rezando à noite. Isso fiz sempre. Posso, nesses tempos, ter-me afastado da igreja, mas nunca me afastei de Deus. E a fé precisa de ser alimentada, é, nesse aspecto, como a vida, porque se não comermos nem bebermos acabamos por morrer.  
 
— Mas voltando ao seu caso...  
 
— Ainda antes do clique que senti, costumo dizer que tive um período mais do que ligado à fé, ligado à fezada. Toda a gente sabe do que estou a falar! Quando estamos aflitos ou vamos a igreja, ou vamos a Fátima, ou colocamos uma vela para que o exame corra bem.  
 
É uma facilidade terrível... é dar um chouriço e ficar à espera, em troca, de um porco. Quando entramos no futebol, esta fezada confunde-se amiúde com religião mas é, acima de tudo, superstição: entrar com o pé direito, com o benzer e por aí fora. Mas, neste processo de algum afastamento, nunca abandonei os princípios da igreja apostólica, católica e romana: casei pela igreja, baptizei os meus filhos e coloquei-os em colégios de matriz cristã. Ia sobretudo à igreja quando tinha casamentos e baptizados mas, como tenho cerca de 60 afilhados, posso dizer que fui lá muitas vezes.  
 
— E o clique?  
 
— Aconteceu durante a inauguração da clínica de um amigo meu, o Manuel Pinto Coelho. Estava lá o sacerdote - o padre Luís - que foi realizar a bênção do espaço e no fim pediu-me boleia.  
 
No caminho falámos bastante e quando o ia deixar em casa disse-lhe que um dia gostava de conversar com maior profundidade com ele. Passados uns tempos liguei-lhe e fomos almoçar. Ofereceu-me um livro, A Fé Explicada, de 1959, autoria do padre norte-americano Leo J. Trese, porque já sabia das minhas dúvidas, especialmente aquela ideia que nos colocavam na cabeça na escola de um Deus castigador.  
 
— O livro ajudou-o ?  
 
— A verdade é que li o livro e ajudou-me bastante. Descobri que Deus não só não é castigador como perdoa sempre; e a gravidade daquilo que fazemos depende muito das circunstâncias e da consciência do pecado que está a ser cometido. Outra questão que me metia confusão era a da criação do Universo. Cientificamente está provado que foi através do Big Bang. Mas quem carregou no botão? E aí, para mim, a resposta só pode ser uma: Deus.  
 
— Tudo mudou, a partir dessa conversa e desse livro?  
 
— Comecei a ir à igreja, à eucaristia, dando expressão a uma necessidade de aproximação e entendimento. Aliás, eu sempre fora demasiado racional e queria perceber tudo. Ora, a fé não se percebe, sente-se.  
 
— Esse clique inicial foi aprofundado?  
 
— Sim. No dia em que fui despedido do Estoril, em 1994, um casal amigo, à noite, em minha casa, falou-me de um curso de cristandade, argumentando que se tratava de um retiro durante três dias que poderia ser bom para mim. Primeiro disse que não, mas depois, pensando melhor, porque me sentia em baixo, acabei por aceder.  
 
— Estava mesmo a viver um grande problema?  
 
— Reconheço hoje que aquilo que me parecia um drama pessoal, ter saído, após 20 anos, do Estoril, não tinha esse valor: eu mantinha o meu emprego de engenheiro no Hotel Palácio, a minha mulher era professora, os meus filhos estudavam e o ambiente em minha casa era bom, mas a verdade é que na altura acreditava estar perante um grande problema e três dias de retiro podiam ser interessantes. E lá fui, na expectativa de que me ajudasse a pensar, a organizar ideias, a ter uma nova perspectiva sobre o que queria da vida.  
 
— E o que aconteceu?  
 
— Não deixando de continuar a ser eu, com os meus defeitos e virtudes, a minha vida mudou.  
 
Sem magias ou pozinhos de prilimpimpim, apenas encetando um relacionamento diferente com os outros. E recordando algumas coisas, por exemplo que Deus é Pai, é Filho e é Espírito Santo, que é omnipresente, que Deus está vivo em cada um de nós. Disseram-me «tu és Cristo». «Eu, Cristo?», pensei, mas em todos os baptizados Cristo é continuado.  
 
Houve muitas coisas importantes, muitas revelações naqueles três dias.  
 
— Quer partilhá-las connosco?  
 
— Reflecti sobre o que Cristo disse quando Lhe perguntaram qual era o maior dos Mandamentos inscritos nas Tábuas da Lei: «O primeiro é 'Amai a Deus acima de tudo' e o segundo (q[ue não constava das leis de Moisés) é 'amai os irmãos como a vós mesmos'». Isto para mim foi marcante, esta questão de que todos somos irmãos. Mas o mais importante foi ter passado a acreditar na Ressurreição. Não tenho dúvidas nenhumas de que tudo isto é apenas uma passagem. E nada teria sentido se não fosse.  
 
O que fazemos aqui, porque somos diferentes, porque cumprimos algumas regras morais que ninguém nos ensinou. Eu acredito que a vida, através de Cristo, venceu a morte e que há outra vida para lá da morte.  
 
— Como é?  
 
— Não sei. Mas sei que há. E sei que é aqui, na vida terrena, que escolhemos o caminho que depois vamos trilhar. Aliás, numa das cartas, São Paulo refere-se a este tema de forma lapidar: «Se Cristo não ressuscitou, não há fé». Ser cristão e ser católico é acreditar na Ressurreição de Cristo. Se não acreditar, então deve ser outra coisa qualquer. E há outras religiões monoteístas, que eu respeito, que acreditam que há vida depois da morte, mas obedecem a parâmetros diferentes.  
 
Mas nesta matéria, eu até respeito aqueles que não acreditam em nada. Porém, eu já coloquei esta. questão a um amigo meu que é ateu: «Se Deus, de facto, não existe, para quê negá-lo?»  
 
— O Deus castigador desapareceu?  
 
— Eu não mato só porque, se o fizer, posso ir preso. Não mato porque moralmente é um acto que não devo cometer.  
 
— Como transporta a fé para o futebol?  
 
— Tenho comigo sempre o crucifixo que me acompanha desde 1994. Deram-mo no último dia do curso de cristandade e disseram-me, nesse momento: «Cristo conta contigo.» E eu respondi, «pode contar.» A partir desse dia o crucifixo nunca mais me abandonou para me lembrar que tenho um compromisso com Cristo, que passa, sobretudo, por tentar ser melhor na minha relação com os outros: mais fraterno, mais preocupado, mais solidário.  
 
Porém, este processo tem de começar por mim e não pelos outros. Não quero, de uma só vez, mudar o mundo.  
 
— Só tem de fazer a sua parte...  
 
— Exactamente. O grande problema é que há muita gente a querer mudar o mundo e esquece-se de se mudar a si próprio.  
 
— Mas a Igreja, por vezes, não dá os melhores exemplos...  
 
— Pois não. Mas há uma grande diferença entre o que é a doutrina da Igreja de Cristo e os homens que a servem. E isto é válido para outras religiões, porque não conheço nenhuma que não pregue o bem. Posso dizer até que conheço pessoas boas, que vão ter na outra vida um lugar melhor do que o meu e que nunca foram à igreja.  
 
— Assim sendo, vale a pena ir à igreja?  
 
— Claro que sim. Ali há um caminho e se o percorrermos também lá chegaremos.  
 
— Os problemas inter-religiosos são coisas dos homens?  
 
— Obviamente. As várias religiões têm doutrinas e pensamentos diferentes, caminhos também diferentes: para os judeus Cristo foi apenas um profeta e aguardam ainda a vinda do Salvador, para os muçulmanos o Messias foi Maomé... mas a doutrina de todas é uma doutrina de bem.  
 
— Pede ajuda divina para os jogos?  
 
— Antes de fazer o curso de cristandade era capaz de pedir para ganhar um jogo e depois, ganhasse ou perdesse, já não me lembrava mais. Depois tudo mudou. Passei a fazer as minhas orações de manhã, onde entrego o meu dia a Deus, peço-lhe que me ajude no caminho, na minha relação com os outros e à noite volto a rezar, agradeço a Deus e faço uma retrospectiva do que fiz de bem e de mal.  
 
— Então hoje em dia, antes dos jogos, qual é o seu comportamento?  
 
- Peço o mesmo que nos restantes dias. Entrego o meu trabalho a Deus e quer ganhe, quer perca, agradeço sempre a Deus.  
 
— E como encara os erros de arbitragem que penalizam a sua equipa?  
 
— Os árbitros são homens sujeitos ao erro. Porém, não deixam de ser erros e, como tal, passíveis de crítica, tal como os treinadores, os jogadores ou os jornalistas também podem errar. Agora não tenho o direito de atacar um árbitro, enquanto pessoa, por um erro dentro das quatro linhas.  
 
NA PRIMEIRA LINHA DO «NÃO» NO REFERENDO À INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ  
 
Sou sempre pela vida  
 
Contra o aborto, contra a eutanásia, contra a pena de morte, sempre e sempre pela vida, eis o pensamento que Fernando Santos assume e está pronto a defender publicamente nos agitados dias que se avizinham. Um discurso que só se afasta das posições mais ortodoxas da igreja Católica na questão da contracepção, que defende.  
 
«A vida nasce a partir da concepção e deve ser defendida», diz sem qualquer pretensão persecutória contra as mulheres que abortam.  
 
— É em nome dos princípios que tem estado a enunciar que está a dar a cara pelo «não» no referendo à interrupção voluntária da gravidez?  
 
— Exactamente, da mesma forma que participei no referendo anterior.  
 
— Esta intervenção pública causa-lhe alguns engulhos em termos profissionais?  
 
— Tenho convicções na vida e sempre pautei por elas o meu comportamento. E não tenho a mais pequena intenção de alterar este padrão comportamental. As pessoas têm de me aceitar como sou. E se sou pela vida, não faria sentido outro comportamento.  
 
— Mas continua a haver uma realidade, incontornável, que mostra milhares de mulheres a abortar anualmente, muitas vezes sem quaisquer condições de salubridade. E há anda a questão da penalização...  
 
— No campo do «não», ninguém quer penalizar as mulheres. O que defendemos é a vida e esta começa no momento da concepção. Da mesma forma que, em nome da defesa da vida, ou contra a pena de morte. Mas voltando à questão do aborto, atentem neste exemplo: há um indivíduo que entra num supermercado e rouba. É crime? Claro que sim. Porém, depois vem a saber-se que tem 10 filhos, tinha sido despedido no dia anterior e não tinha comida para lhes dar.  
 
Contínua a ser crime, porém, com muitas atenuantes. E se calhar a pena não passará de um trabalho cívico. Mas o fundamental é resolver a questão social subjacente ao crime.  
 
— A ignorância ainda é um obstáculo?  
 
— Acredito que haja mulheres que tomam essa decisão por não terem estado, antes, suficientemente informadas. Agora dizer-lhe que está tudo bem, que podem interromper a gravidez à vontade, é que não me parece o caminho correcto, é não pensarmos na defesa da vida.  
 
— Não há excepções?  
 
— Haverá, quando for necessário, por razões médicas, optar entre vida do filho e a vida da mãe.  
 
— Mas a Igreja proíbe os contraceptivos e advoga métodos ditos naturais. Concorda?  
 
— Não sou contra o uso dos contraceptivos. Mas na própria Igreja vai existindo alguma abertura em relação a essa questão. Admito que um casal, numa determinada fase da vida, não queira avançar para uma criança. E há tantas formas de resolver, em segurança, essa opção...  
 
— Se alguma vez se vir numa situação desesperada, aceita pedir ajuda para morrer?  
 
— Não, nunca. Eu não pedi ajuda para nascer, também não vou pedir para morrer. O que digo é que no dia em que a morte tiver de chegar que chegue de forma rápida.  
 
Mas se assim não for... quem tem fé acredita que o sofrimento é uma maneira de alcançar outro patamar. Nem aborto, nem eutanásia, nem pena de morte. Não há o direito de tirar a vida a alguém.  
 
— Nem a Saddam Hussein?  
 
— Saddam era aquilo que todos sabemos e creio que não devia fazer parte da nossa sociedade. Mas seria sempre possível encontra-lhe um destino, no cárcere, que evitasse a pena de morte. O mesmo é válido, grosso modo, para os violadores, que me metem um particular asco.  
 
— E se um dos seus filhos fosse vítima de um acto desses, não repensaria essas convicções?  
 
— Acredito no direito à vida. Porém, sou suficientemente humilde para, numa situação dessas, lembrar o provérbio «não digas dessa água nunca beberei.» Mas aí deixa de ser a razão e passa a ser a emoção a falar.