Público - 27 Jan 06

Liberalismo e relações humanas

O relógio impõe-se cada vez mais e o trabalho absorve o quotidiano das cidades, definindo estilos de vida e determinando o relacionamento entre as pessoas. A família, conceito tão caro à direita, esboroa-se por entre as prioridades da economia, os objectivos empresariais e a supremacia dos números e das percentagens. A questão não é nova mas importa realçá-la, particularmente em tempos de grande regozijo entre os conservadores: o neoliberalismo não é compatível com muitos valores tradicionais, como a lealdade das amizades, a camaradagem e a família.
Das escolas públicas pretende-se que constituam armazéns de crianças, onde estas possam passar o dia enquanto os pais trabalham. Quando possível, existem as escolas de música, desportivas, os centros de ocupação de tempos livres, onde crianças e jovens gastam as horas do dia até que um dos pais os possa recolher. Introduzem-se conceitos novos na relação entre pais e filhos, como é a qualidade. Não é importante o tempo que se passa com eles mas sim o que se faz quando estamos com eles. (...)
Desde sempre o liberalismo caminhou para o individualismo, negando como princípio tudo o que pudesse indiciar associações de pessoas em defesa de direitos específicos, quer no trabalho, quer noutras questões que envolvam direitos humanos. Para o liberalismo, é mais difícil lidar com o grupo organizado do que com o indivíduo isolado. E, assim, a família que exercite a vivência familiar propriamente dita adquire hábitos que mais cedo ou mais tarde serão incompatíveis com as regras do quotidiano liberal, o mesmo é dizer os preceitos das empresas, o mercantilismo dos lazeres, os objectivos curtos e inconsistentes.
Entre família e neoliberalismo há uma incompatibilidade de fundo e os princípios de que partem são opostos; a primeira exige o sereno conhecimento das pessoas e das coisas, o segundo pressiona o indivíduo e cativa-o para ocupações planeadas e relações humanas meramente formais.
Paulo Frederico F. Gonçalves
Porto

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