Público  - 16 Fev 09

 

Navegação à vista
Francisco Sarsfield Cabral

 

A nacionalização de mais bancos é uma possibilidade cada vez menos longínqua

 

"Não há GPS para a crise, temos de nos guiar pelas estrelas. O problema são as nuvens." Esta frase do ministro Teixeira dos Santos originou inúmeros comentários jocosos nos media e no Parlamento. No entanto, a frase retrata fielmente a situação face à crise. Uma crise que alguns, incluindo o Governo português, desvalorizavam ainda há dois meses, mas cuja gravidade está hoje à vista de todos.

 

Os ziguezagues sucedem-se. Angela Merkel criticou o Governo irlandês por este garantir que não deixaria falir bancos - e dias depois teve de salvar um banco alemão. Merkel mostrou resistência a aumentar a despesa pública para ajudar o sistema financeiro e contrariar a crise económica, mas acabou por ter que o fazer.

 

Nos Estados Unidos, o plano Paulson previa que o Estado comprasse os activos "tóxicos" dos bancos. Depois, ainda com Bush, Washington mudou de estratégia e passou a dar prioridade à recapitalização dos bancos com dinheiro do Estado (solução adoptada por Gordon Brown na Grã-Bretanha e geralmente acolhida na União Europeia). Agora, nos EUA e na Europa está de novo na ordem do dia o Estado comprar os "tóxicos" através de bancos a criar para o efeito (bad banks).

 

Os governos britânico e americano já vão no segundo plano para salvar o sistema bancário. E não chega. A nacionalização de mais bancos é uma possibilidade cada vez menos longínqua.

 

Entretanto, por toda a parte os bancos restringem a concessão de novos créditos. Os políticos protestam, mas os empréstimos tornaram-se difíceis e caros de obter. Porquê, se o negócio bancário é emprestar dinheiro a juros? Porque os bancos precisam de fundos em quantidades astronómicas para reconstituírem o capital após as perdas sofridas com a desvalorização dos seus activos.

 

Aguardou-se com expectativa uma estratégia europeia para combater a recessão. Mas não se vê uma coordenação dos planos que cada estado-membro da UE vai avançando. Nem sequer na zona euro. Pior: vários desses planos (e não apenas o francês) incluem medidas directa ou indirectamente proteccionistas, pondo em causa o Mercado Único e, com ele, a própria UE. Nos EUA foram notórias as hesitações e as reservas na aprovação pelo Congresso americano do plano de Obama para relançar a economia, apesar da rapidez com que a crise se agravava.

 

Se quase ninguém nega a necessidade de intervenções maciças do Estado nos mercados neste momento, também se começam a perceber os inerentes custos, não apenas financeiros. Os governantes conhecem mal os mercados. Por isso cometem erros. Veja-se a Qimonda, que os poderes públicos, em Portugal e na Alemanha, procuraram ajudar, mas que o mercado pôs fora de combate, com a concorrência asiática a baixar drasticamente o preço dos artigos produzidos. O Estado tem limitações quando faz de empresário.

 

O mais preocupante é não se ter já debelado a causa imediata da recessão: a crise financeira. Evitou-se o colapso em Outubro, é certo. Mas "o sistema financeiro ainda está doente e ninguém sabe o que fazer", disse ao Jornal de Negócios Kenneth Rogoff (professor em Harvard e antigo chefe dos economistas do FMI). Acrescentou Rogoff que já seria bom que os planos anti-crise tivessem uns 15% de eficácia. Um ano e meio depois de surgirem os primeiros activos "tóxicos", "eles continuam no sistema bancário e ninguém sabe quando os seus efeitos deixarão de se fazer sentir", afirmou o secretário-geral da OCDE. Na sexta-feira as acções do LLoyds caíram um terço por causa da revelação de mais perdas. É uma crise inédita, diferente das anteriores, incluindo da Grande Depressão dos anos 30. Esta foi desencadeada por uma euforia no mercado bolsista, seguida de um crash, corrida aos bancos, etc. A actual é uma crise do crédito. De um excesso irresponsável de crédito fácil, que se transformou no seu oposto - falta de crédito.

 

Quem diz ter soluções eficazes e seguras para a crise financeira e para a crise económica é inconsciente ou irresponsável. A única maneira de tentar evitar o pior neste enorme nevoeiro de incerteza é navegar à vista. Mesmo assim, nada garante que o barco não encalhe.

 

Mas não se trata de navegar à vista de eleições, distribuindo generosamente dinheiro dos contribuintes para captar votos, com a desculpa da crise. Esta é uma tentação à qual o nosso Governo ainda não deu sinais de resistir. Jornalista