Diário de Notícias - 10 Fev 09

 

A qualificação da insegurança
Adriano Moreira

 

Não parece um método tranquilizante da sociedade civil o anúncio da evolução estatística da criminalidade, sobretudo quando insiste em débeis percentagens de crescimento. As médias dizem pouco sobre a relação entre a espécie e gravidade das infracções e a insegurança efectiva dos cidadãos. Por outro lado, esta insegurança efectiva teve relação com imagens identificadoras de grupos étnicos e culturais nos quais os noticiários, os comentários, os murmúrios e a observação difusa mas inquieta vão fixando a origem mais frequente do recurso à violência.

 

Se esta circunstância prejudica políticas de integração que sejam apegadas aos factos, também por outro lado desvia as atenções de causas relacionadas com as carências que não distinguem grupos diferenciados pelas etnias e crenças, porque atingem indiscriminadamente as populações envolvidas pelo turbilhão do globalismo caótico, cujas ruínas se vão somando, em várias latitudes, às ruínas causadas pela natureza. Alguns comentadores ocidentais destes factos verificaram e inquietaram-se com a circunstância de se terem islamizado as desordens graves de Outubro e Novembro de 2005.

 

Recordo o sociólogo Laurent Chambon, experiente do multiculturalismo francês, que desenvolveu uma atenta crítica no sentido de que, em lugar de a França estar perante a revolta de "gangues de jovens inspirados por muçulmanos radicais", deveriam antes ser consideradas tais violências como manifestações contra a precariedade da vida e da esperança da juventude, sem diferença de origem ou filiação dos envolvidos.

 

Parece de considerar o reparo, que encaminha para uma visão mais rigorosa da complexidade crescente da fragilizada relação das sociedades civis com a ordem. Mas esse realismo também não pode implicar a desatenção a componentes da revolta que são animados pela cólera, movida pelo desafecto em relação ao regime político, ou pela inspiração religiosa mal orientada.

 

Também, avaliadas as explosões de violência que se verificaram em regiões distanciadas, tomando por exemplo o que se passou recentemente em Atenas, não parece acertado imaginar que se trata apenas de os bárbaros se levantarem contra a civilização ocidental. O conflito étnico, cultural e religioso está facilmente presente em parte dos participantes na violência, os quais vivem de-sintegrados pela condicionante originária da imigração descontrolada. Mas o que seguramente aparece como abrangente de toda essa juventude em cólera, envolvendo descendentes das velhas famílias nacionais e filhos das colónias interiores que as migrações originaram, é a precariedade dos projectos de vida que atinge toda a geração, por diferentes que sejam as condições de partida. Precárias são as esperanças dos que "nascem na classe errada e na etnia frágil", precárias são as esperanças dos que nascem no ambiente antes seguro da meritocracia.

 

É certo que os primeiros terão sempre maiores dificuldades de verem uma luz ao fundo do túnel, mas as classes médias, apoio histórico da vida habitual e, portanto, da segurança, verificam que nem sequer as qualificações universitárias asseguram uma função, e menos uma carreira assente em moldes de profissão liberal. A precariedade agudiza a falta de confiança que marca a relação dos povos com os órgãos do poder legal, e não a melhora com os poderes em rede que se estruturam, sem regulação, para além, e por vezes contra, das estruturas políticas.

 

Em 2005, data de grave sinal de advertência que a natureza das coisas enviou aos titulares das responsabilidades governamentais, ainda não havia notícia pública do desastre do sistema financeiro mundial, das consequências na economia real, dos efeitos que vão multiplicar-se na atitude das populações atingidas, cujo projecto de vida se desmorona. Por isso é certamente avisado não imaginar que Paris e Atenas são acontecimentos que apenas serão recordados pelas crónicas, porque a doença do globalismo sem governança vai provavelmente multiplicar as explosões sociais ao longo da rede globalista.