Diário de Notícias - 09 Fev 09

 

PJ combate 'offshores' do sexo disponíveis na Net
Paula Carmo

 

Crime. Internet nos telemóveis potencia novo grau de risco e massificação dos computadores para crianças de tenra idade também eleva o perigo de crimes sexuais iniciados através de contactos em 'chats'. Quem o afirma é Camilo Oliveira, inspector-chefe da Polícia Judiciária de Coimbra, especialista nesta matéria

 

Denúncias de pais às autoridades crescem a ritmo acelerado

 

Tinha tudo para ser uma pesquisa normal na Net. O universitário de Coimbra procurava dados sobre felinos para um trabalho para a faculdade. Através dum motor de busca, surge o que procura, mas o que imaginava encontrar estava longe de ter pormenores sobre o mundo animal selvagem. Apresentou queixa. Era um ficheiro de pornografia infantil.

 

"Há cada vez mais casos revelados à polícia portuguesa de crimes sexuais com origem no espaço cibernético, muitas das denúncias com menores são feitas pelos pais", assume o inspector-chefe da Directoria de Coimbra da Polícia Judiciária, Camilo Oliveira.

 

Seduzidos, menores e adultos iniciam relacionamentos com situações banais, nomes inofensivos, às vezes pueris. "Na Net, os 'amigos' são sempre simpáticos, de bom trato", acrescentando que a massificação dos computadores para crianças cada vez mais novas e a Net nos telemóveis são potenciadores dos perigos "em que os menores são vítimas e também autores de crimes".

 

Tal como no mundo real, é infindável a lista de crimes praticados, desde a pedopornografia à difamação e injúria, do cyberbullying aos encontros com "amigos" coleccionados em chats, abusos, violações. "Há muitos casos, por exemplo, de material de pornografia infantil que não está alojado em Portugal, mas, antes, em países que não criminalizam esta actividade", diz ao DN o investigador dos crimes sexuais. É, pois, uma espécie de offshore de sexo, redes fechadas e ocultas, mas com vítimas de carne e osso.

 

"Há exemplos de pornografia infantil em que a foto de uma criança é dividida e cada parte do retrato está alojado num computador de país diferente e só quando se faz o download desse material, pagando com cartão de crédito, é que se reúne a imagem completa. É um combate difícil, porque há sites com nomes inofensivos", diz.

 

Só que a forma de obtenção dessas fotografias pode acontecer em casa de muitas famílias portuguesas. Alerta o especialista: "Os menores são manipulados, ingénuos, entram no jogo com 'amigos', e quantas vezes as suas fotos são usadas para outros fins."

 

Desde Abril de 2007, equipas da PJ já visitaram 42 escolas, graças a um projecto-piloto, em parceria com a Direcção Regional de Educação do Centro, com acções de formação de pais e professores sobre o mundo online. As crianças reagem bem a estas iniciativas e quase sempre contam histórias na terceira pessoa. "Na Internet, todos mentem", diz o especialista ao DN.

 

A Procuradoria-Geral da República (PGR) já apontou os crimes sexuais que se iniciam na Internet como uma das prioridades. No ano passado, a PGR apontou que só em Lisboa foram denunciados 67 casos de crimes sexuais iniciados na Net, com a maioria dos casos a envolver crianças. A tendência, esclarece a PGR, é de subida do número de casos.