Público - 04 Fev 09

 

E a Deborah disse bravo!
Santana Castilho

 

Os avaliadores internacionais não consideraram nenhum dado estatístico que tenha escapado às matrizes oficiais

 

Na semana passada, "a Deborah" veio a Lisboa dizer-lhe bravo! Ele tratou-a com a intimidade que as aspas sublinham, embora nunca a tenha visto na vida. Deu um murro no púlpito, repetiu o bravo e atirou-se à oposição. Depois despediu-se da ministra da Educação com um pretérito circunstancial "foi um prazer trabalhar consigo". Como no sambinha, "morreu" na segunda-feira, atrapalhando o debate: a oposição chamou-lhe mentiroso. Afinal, o relatório não era da OCDE.

 

A cena macaca não surpreende. Estamos habituados. Mas a macacada da cena merece comentário, até porque a pagámos a bom preço. A coisa não é um relatório de avaliação séria e credível. É um mero texto opinativo, de estilo duvidoso. Pouco me importa o currículo dos autores, quando as 93 páginas que produziram são de uma pobreza que dói. Vejamos porquê. As fontes documentais (anexo 2, pg. 89) são todas do Ministério da Educação. Nem uma das milhares de páginas que se escreveram, em oposição à política do Governo, mereceu a atenção dos peritos internacionais. A informação de enquadramento (pg. 13) é, pois então, um relatório "excelente" (sic, pg. 13) preparado para os peritos independentes pelo... Ministério da Educação e "um impressionante conjunto de dados" (sic, pg. 13) fornecidos pelo... Ministério da Educação. Os independentes internacionais não se deixaram enquadrar por nenhum dos livros publicados no período sobre as matérias em análise, por nenhum documento produzido em sede da Assembleia da República ou Conselho Nacional da Educação, por exemplo, associações científicas, profissionais ou sindicais, muito menos por dados estatísticos que tenham escapado às matrizes oficiais. Mas, para além de glosarem o "excelente" relatório e cavalgarem o "impressionante conjunto de dados", que mais fizeram os avaliadores internacionais? Passaram seis dias (pg. 26) em Portugal. Leram bem! Seis dias. E nesses seis dias tiveram tempo para fazer 14 reuniões, ouvir 58 pessoas (pgs. 87 e 88) e viajar pelo país em visita a 10 escolas. A resistência física dos avaliadores fica demonstrada. Mas o carácter epidérmico dos contactos a que procederam, também. A esmagadora maioria das pessoas com que se encontraram são altos quadros do Ministério da Educação. Dos quatro académicos que constam da lista, independentemente da respeitabilidade científica e profissional que merecem, três, pelo menos, são normais apoiantes das políticas do Governo e do partido político que o suporta. Das câmaras municipais inquiridas, seis são do PS. E na outra pontifica Valentim Loureiro, publicamente conhecido pela vassalagem a Sócrates e à ministra da Educação.

 

A qualidade dos instrumentos de avaliação depende sempre de um conjunto vasto de variáveis. Mas há regras mínimas que, quando não cumpridas, como no caso vertente, abrem legítimo campo à suspeição de pré-ordenação para servir determinados resultados. Nesta avaliação, os factos demonstrados são substituídos por indícios intuídos. Nesta avaliação evocam-se com lisonja inusitada resultados que não estão sustentados por testagem independente, nem nada permite que se relacionem com as políticas que foram seguidas. As regras básicas do aleatório para as escolhas ou da representatividade para as amostras foram, tão-só, ignoradas. E isto é grave! Não é bravo!

 

Este escândalo já tem segunda edição em marcha, com a anunciada entrega da avaliação dos cursos profissionais das escolas públicas a outra turma de independentes. Aí, como aqui, percebemos porquê: é preciso branquear mais uma mistificação. Com alguns dos muitos milhões que se inscreveram no Orçamento do Estado para pagamento de serviços a consultores externos, sempre se arranjará nova Deborah, que grite ao vento do CCB outro bravo. Professor do ensino superior