Público - 03 Fev 09

 

Há algum dinheiro. Mas está nos bolsos errados
Paulo Ferreira

 

Se o Governo está preocupado com o emprego, porque não paga já os milhares de milhões que o Estado deve às empresas?Falta dinheiro a circular na economia. Os bancos, desconfiados, emprestam muito pouco uns aos outros. Este pavor do risco que assaltou os banqueiros - tarde de mais, diga-se, e mostrando que a um excesso se responde muitas vezes com um excesso de sinal contrário - fez também secar a torneira de financiamentos às empresa e a particulares. O dinheiro tornou-se um bem escasso e, quando há, é "vendido" a preços mais altos, evidentes no aumento dos spreads que os bancos estão a praticar.

 

O mesmo cliente particular, com o mesmo emprego e os mesmos rendimentos, não consegue hoje negociar um spread tão baixo como conseguia há um ano para a compra de casa. Mais: para emprestar hoje, os bancos exigem mais garantias, sendo muito mais conservadores no peso do financiamento face ao valor da casa.

 

Para as empresas, a situação é ainda mais difícil. No caso das pessoas, ainda há empregos seguros e rendimentos certos, a começar pelos funcionários públicos, que nestas alturas sentem o seu lugar à prova de crise, valor imenso que nunca é contabilizado nas negociações salariais.

 

Com a generalidade das empresas, não é tão bem assim. O encolhimento repentino da procura deixa-as a braços com estruturas de custos difíceis de suportar quando as vendas caem 20, 30, 40 ou mais por cento. Veja-se, por exemplo, a quebra superior a 50 por cento nos automóveis vendidos em Portugal no mês de Janeiro...

 

Para a banca, isto significa risco em cima do risco. Tudo boas razões para apertar mais a torneira do crédito.

 

Há de tudo nesta crise. Há empresas com produtos obsoletos, em mercados em declínio, com reconversões tecnológicas ou de gestão que ficaram por fazer e que, com crise ou sem ela, estariam igualmente condenadas. Para estas, a depressão só vem acelerar a agonia.

 

Mas depois há as outras, aquelas que são viáveis, altamente competitivas até, mas que sofrem com a restrição financeira e o súbito, mas passageiro, desaparecimento de uma parte importante da procura. Estas são aquelas para quem é vital o financiamento que permita atravessar o deserto até ao regresso do crescimento.

 

O Governo, como se tem visto, vai tentando apagar alguns fogos mais mediáticos. Mas, como é inevitável em épocas de denso nevoeiro económico, isso não é estratégia nem é eficaz. Olhe-se para o exemplo da Qimonda e veja-se como, no espaço de meio ano, passou de empresa-bandeira do Plano Tecnológico a empresa em dificuldades que foi salva com a ajuda da CGD para acabar à beira da falência um mês depois deste salvamento que afinal não o era. Não há certezas, como se vê, que durem mais do que meia dúzia de dias.

 

No meio do sufoco financeiro, há, no entanto, cerca de três mil milhões de euros que estão onde não deviam. É dinheiro. São cerca de 1,75 por cento do PIB que o Estado deve a empresas. Entre boas mas ineficazes intenções de listas de credores e de balcões únicos, aquele montante teima em não sair dos bolsos fundos da administração pública para ir para quem dele precisa mais do que nunca: as empresas que venderam produtos e serviços ao Estado e desesperam para receber o dinheiro desse fornecimento.

 

Se o argumento do "Estado pessoa de bem", do "Estado cumpridor" ou, mais simplesmente, do "Estado cobarde que não cumpre a lei que impõe aos outros" nunca comoveu os governantes, que seja agora o argumento dos empregos em risco a resolver, de uma vez e com eficácia, este cancro muito português do Estado que se esquece de pagar.

 

Não se pode levar a sério nenhuma medida de apoio às empresas anunciada pelo Governo enquanto o Estado não pagar o que deve. Não dá direito a directos regulares nas TV, mas só depende de si e resolve muitos problemas de quebra da cadeia de pagamentos.