Público - 02 Fev 09

 

As coisas estão a ficar demasiado feias
José Manuel Fernandes

 

Quando ingleses se manifestam contra portugueses e italianos e de Espanha regressam muitos que lá iam buscar sustento, cuidado: o que separa a ordem do caos e a civilização da barbárie é uma fronteira tão frágil como uma fina camada de verniz

 

As histórias de vida que Ana Cristina Pereira nos conta nas primeiras páginas desta edição são mais um sinal de como o desemprego tem facetas de que nem desconfiamos. São histórias de gente de Cinfães, de famílias que ainda há meses viviam sem sobressaltos porque quando não havia trabalho em Portugal, havia em Espanha. Na construção civil.

 

Eram bons empregos? Eram empregos. Eram idas e vindas em carrinhas cheias de gente, semanas a viver sem condições, mas um rendimento certo ao fim do mês. Agora esses migrantes de Cinfães estiveram entre os primeiros que as empresas de construção em Espanha dispensaram.

 

Só que a semana que passou trouxe, para outros portugueses que procuraram no estrangeiro o seu sustento, momentos de aflição. O pior dia tê-lo-ão passado na sexta-feira, no Reino Unido, quando aí rebentaram greves selvagens e tumultos espontâneos contra companhias que tinham contratado mão-de-obra portuguesa e italiana. Os manifestantes empunhavam cartazes onde se repetia uma frase utilizada, num discurso em 2007, por Gordon Brown, actual primeiro-ministro britânico: "British jobs for British workers", isto é, "empregos britânicos para trabalhadores britânicos".

 

Na mesma altura em que os protestos se multiplicavam pelo país, o mesmo Brown estava em Davos a discursar contra o regresso do proteccionismo - a discursar e a discursar bem. O problema é que a sua frase de 2007 já se tinha transformado no lema da extrema-direita britânica, representada pelo British National Party (BNP), um partido anti-imigração cujo site na Internet ainda ontem incitava os trabalhadores britânicos a reclamarem para si os "empregos britânicos". Na BBC, Gordow Brown esforçava-se por explicar o sentido das suas palavras, mas a imprensa inglesa já anunciava que o Reino Unido vai tentar modificar as leis europeias que abrem o seu mercado de trabalho aos cidadãos da União Europeia. A França, o país que se tornou tristemente célebre pelas suas campanhas contra os "canalizadores polacos", estaria disposta a alinhar; a presidência da União, actualmente ocupada pela República Checa, já se teria manifestado contra qualquer mudança que fizesse regressar o proteccionismo.

 

No fundo, a distância entre as aldeias de Cinfães e a refinaria da Total que queria contratar portugueses e italianos não é nenhuma - é a distância que uma notícia leva a saltar fronteiras que até já quase nem existem. Porque aquilo a que estamos a assistir é ao desnorte de quem num dia afirma que precisamos de mais globalização porque precisamos de soluções globais e, no dia seguinte, se confronta com eleitores que apenas querem saber das suas oportunidades de emprego.

 

A civilização, escreveu o físico e romancista C. P. Snow, "é tremendamente frágil". "Entre o que somos e os horrores que fervilham nas entranhas da humanidade não há quase separação, talvez exista apenas uma camada de verniz" - e o verniz estala muito, muito facilmente. Ora o polemista que incendiou as gentes do seu tempo com o seu ensaio sobre "as duas culturas" - a cultura científica e a cultura literária - sabia do que falava, pois fora testemunha do tempo das trevas no que hoje vemos como um quase paraíso na Terra, a primeira metade do século XX na Europa. E viu como o povo que se julgava mais civilizado, o alemão, mergulhara na barbárie nazi de livre vontade - exactamente: de livre vontade.

 

Will Durant, filósofo americano que escreveu uma das mais celebradas "História das Civilizações", notou que estas começam por criar a ordem, florescem em liberdade e, quando caem, quando morrem, fazem-no criando o caos. E isso, por regra, sucede quando as elites perdem as suas referências e actuam sem limites morais (será que, no mundo das finanças e da política, não temos assistido a demasiados casos destes?), quando mesmo os intelectuais celebram o relativismo e o hedonismo (não é essa a tendência dominante?).

 

Ora, nestas alturas é muito fácil que a desorientação se instale e os ouvidos se abram ao populismo mais rasteiro. Querem um exemplo? Então vejam estas declarações de um político britânico: "Deitámos fora os nossos direitos quando nos juntámos a essa prisão das nações que é a União Europeia". Mais: "Só haverá empregos britânicos para trabalhadores britânicos quando o Reino Unido voltar a ser governado por britânicos".

 

Não foi nenhum extremista do BNP que as proferiu, foi um ex-ministro de Sua Majestade, hoje deputado eleito pelo Partido Trabalhista, o mesmo de Gordon Brown: Frank Field.

 

Este fim-de-semana, no sábado e no domingo, Pacheco Pereira e António Barreto escreveram neste jornal dois textos onde se alertava para como o drama do desemprego é corrosivo e como têm sido erradas muitas políticas destinadas a combatê-lo. Nenhum deles ganharia eleições repetindo aqueles raciocínios. Mas, se os que querem ganhar eleições não pararem para pensar e escutar - como frequentemente sucede -, então o que hoje é uma crise pode tornar-se numa grave depressão e esta, pela sua própria natureza, pode degenerar no caos. Há alturas em que História volta para trás muito mais depressa do que andou para a frente.