Público - 10 Fev 07

 

Reflictamos

Helena Matos

 

Existirão poucos dias mais bizarros do que os denominados "dias de reflexão". Reza a explicação corrente que se trata dum arcaísmo sobrante dum tempo, os anos 70, em que, não estando ainda a democracia consolidada em Portugal, se temiam os golpes de propaganda escassas horas antes de se ir a votos. Hoje não só isto não tem qualquer validade, como a própria tecnologia acabou por tornar a lei mais evidentemente obsoleta. Por exemplo, o dia de reflexão também se aplica aos blogues? Apenas aos blogues colectivos? E se não se colocar qualquer comentário no dia de reflexão deixando assim à vista os comentários feitos anteriormente está a violar-se a lei eleitoral? Às questões tecnológicas juntam-se as humanas: sabendo que no dia seguinte vai ter lugar um acontecimento importante, como se devem comportar os jornalistas? Assobiam para o ar? Escrevem sobre um país de faz de conta?
Recordo que após as últimas eleições presidenciais um dos candidatos derrotados apresentou uma queixa contra o Diário de Notícias junto da Comissão Nacional de Eleições (CNE). A razão da queixa prendia-se com o artigo intitulado "Três cenários em aberto", publicado por aquele jornal no próprio dia das eleições. Nesse artigo, como o próprio título deixava antever, eram equacionados apenas três cenários como desfecho das presidenciais e um dos candidatos, Cavaco Silva, era apresentado como o provável vencedor. Para a CNE "Três cenários em aberto" "é um artigo de carácter ensaístico e especulativo que faz projecções de natureza tendenciosa, propondo ao eleitor hipóteses mais reduzidas do que as existentes na realidade". Estes considerandos da CNE seriam válidos, caso o Diário de Notícias fosse um boletim de voto ou um edital duma junta de freguesia. Mas não é. Ao contrário do que diz a CNE, não são os artigos de "carácter ensaístico" que têm de fazer propostas aos eleitores. Esse é o trabalho e a razão de ser dos candidatos, partidos ou movimentos.
Por outro lado, o que está implícito nesta tese da CNE é que os jornais, rádios e televisões devem ficcionar igualdades e não analisar a realidade: só se o Diário de Notícias fosse editado em Marte é que, em Janeiro de 2006, apresentaria como provável a vitória de Mário Soares, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa ou Garcia Pereira nas presidenciais que então se disputavam. Ainda segundo a CNE, a publicação, durante a campanha eleitoral e nos dias de reflexão, de artigos em que se traçam cenários que não incluem todas as hipóteses de vitória/derrota pode "perturbar o exercício de um direito de voto livre e consciente." Se todos percebemos o que é a liberdade de voto, já o mesmo não se pode dizer sobre a consciência do voto. O que é o voto consciente? Pressupõe isto que existem eleitores mais conscientes uns do que os outros? Não creio. Existem sim concepções muito preconceituosas sobre o eleitorado e a sua capacidade de escolha. Espero francamente que num próximo acto eleitoral já tenha desaparecido a reflexiva figura e que a informação e a opinião possam abandonar esta espécie de estado alienado de excepção em que agora vivem desde a véspera dos actos eleitorais até ao fecho das urnas.
2. Para nos consolarmos sobre as idiossincrasias da nossa lei eleitoral nada melhor do que informarmo-nos sobre as leis que regem os outros neste domínio. E aí o caso francês é eloquente. Termos como "padrinho" e "apadrinhamento" que estamos habituados a encontrar em contextos pouco recomendáveis são repetidos à exaustão nas presidenciais francesas. Por outras palavras, em França não basta ter apoio popular para se ser candidato à Presidência da República. É indispensável também recolher 500 assinaturas entre cidadãos eleitos como deputados e presidentes de câmara. Assim estamos perante um sistema fechado, hostil a quem vem de fora, em que os eleitos se protegem entre si e reforçam teias de cumplicidades. O sistema de parrainage oficialmente apresentado como um mecanismo preventivo face aos candidatos excêntricos ou folclóricos pode levar a que um candidato com forte apoio popular fique de fora. E esse é actualmente o caso de Le Pen. Pode arriscar uma democracia não integrar no quadro eleitoral um candidato com o apoio que Le Pen tem? As actuais discussões em torno da revelação da identidade dos padrinhos de cada candidatura e sobre a possibilidade de os eleitos por um partido apadrinharem um candidato que não o desse mesmo partido são os sinais exteriores da degradação gerada por um sistema eleitoral pouco transparente. E a pedir mais reflexão.
3. Nos mesmos dias em que jornais e noticiários se enchiam com notícias sobre jovens brasileiras vítimas de anorexia, uma família na qual se contava uma criança foi barbaramente agredida numa cidade brasileira. Este seria apenas mais um assalto nos arredores de São Paulo, caso os agressores não tivessem também condenado a morrer queimadas as suas vítimas. Fora do Brasil poucas ou nenhumas linhas se dedicaram à morte de Eliane Faria da Silva, do seu marido, Leandro Oliveira, e do filho de ambos, Vinicius, que contava apenas 5 anos. Serão as suas mortes menos importantes que as das jovens anorécticas? De modo algum. Simplesmente a anorexia tal como o tabagismo ou a obesidade são problemas que se podem abordar sem correr o risco de se ser considerado populista. Já o mesmo não se pode dizer da delinquência urbana. Nessa matéria ou se contam as histórias dos bandos, ou quando muito fazem-se umas análises sociológico-psicanalíticas dessa mesma violência. Relatá-la é que não.
Esta espécie de pudor não sei se estético, se político faz tanto sentido quanto não relatar casos de fome, desemprego, guerra ou corrupção. Mas na verdade é assim. Há algumas décadas o mesmo preconceito estendia-se aos casos de violência conjugal e aos maus tratos infantis. Quando muito essas notícias eram atiradas para as pequenas secções. Aí, no meio dos relatos sobre mortes à sacholada por questões de águas e envenenamentos que procuravam extinguir paixões, encontramos mulheres espancadas até à morte e crianças esgotadas pela vida e pelos maus tratos. Actualmente a chamada "imprensa de referência" dá particular importância a estes casos que outrora cabiam no que designava como "faca e alguidar". Mas ainda não consegue relatar os assaltos, a violência... Por enquanto prefere falar de anorexia, obesidade e mil outras patologias invariavelmente associadas aos comportamentos. Frequentemente até se noticia em tom festivo a adopção de medidas autoritárias por parte de alguns países para combater esses mesmos comportamentos. Será aceitável, por exemplo, que um governo mande calcular o índice de massa corporal das mulheres? Esta recente iniciativa do Governo espanhol, que se junta à sua decisão de não permitir que desfilem em certames de moda mulheres abaixo dum determinado peso, é dum autoritarismo inquietante. Mas mais inquietante ainda é a percepção de que hoje, tal como no passado, as matérias comportamentais funcionam como uma espécie de filtro da realidade e caução de um poder tão ineficaz quanto intrusivo. Jornalista