Público - 10 Fev 07

 

Escolher e decidir

Rui Tavares

 

Dizia Fernando Pessoa, no meio de um poema sobre um momento de grande desânimo, que estava escrevendo o poema "no dia seguinte" - quando presumivelmente já se sentia bem melhor, pelo menos o suficiente que é preciso para que alguém se sente à mesa e escreva triunfalmente sobre a sua depressão do dia anterior. Mas logo depois, notando que o leitor se poderia sentir defraudado por aquela falta de autenticidade do poeta, Fernando Pessoa contra-ataca abrindo o jogo: no dia seguinte sim, é sempre no dia seguinte, no dia seguinte é que se escrevem os poemas sobre a depressão do dia anterior, a paixão do dia anterior, etc.
O cronista que publica em dia de reflexão tem o problema contrário: escreve no dia antes. O seu texto é lido, maioritariamente, durante o recesso da campanha política, entre o café e o sorvete para os miúdos, quando os vizinhos já se cumprimentam de novo com um sorriso nos lábios, apesar de saberem que vão votar em coisas inversas no dia seguinte. Mas foi escrito na véspera, quando a campanha ferve e se jogam as últimas achas retóricas desesperadas. O cronista tenta projectar-se no dia seguinte, imaginando-se sereno, expulsando a campanha eleitoral do organismo. À sua volta, porém, dá-se tudo por tudo, não se fala de mais nada, não se pensa em mais nada. E aqui dá-se uma daquelas grandes injustiças entre quem escreve e quem lê. Você, leitor, já está do lado de lá, usufruindo da tranquilidade do dia de reflexão. Mas eu estou ainda naquele passado turbulento e controverso. Não há autenticidade que sobreviva a esta viagem do tempo: você já sabe mais do que eu; eu só posso tentar fingir. As leis da física impedem o leitor de me ajudar, explicando-me como se sente desse lado. Pior ainda: as leis da nação impedem-me a mim de passar informação deste passado para o presente do leitor, para não correr o risco de lhe influenciar o sentido de voto no seu futuro próximo (depois disso não haveria problema, mas o jornal já foi impresso e assim fica).
Pelas contas da data que rege o cabeçalho da primeira página, temos então amanhã referendo. Ao fim do dia já vamos saber se a maioria dos eleitores concorda ou não com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez sob determinadas condições. Eu já fiz o meu apelo ao voto na semana passada, e não quero mais aborrecer ninguém com isso. Mas esta não é a única coisa que está em jogo: vamos também "saber" qual é o futuro do referendo propriamente dito.
Saltando por cima do voto de amanhã, façamos uma breve meditação sobre o papel do referendo em geral e abstracto. Desde logo, notem que aquele verbo saber que aparece duas vezes no parágrafo de cima é bem diferente em cada caso. No primeiro caso, vamos mesmo saber se "sim" ou se "não". A pergunta é feita para diminuir interpretações. A partir da contagem sabemos efectivamente qual é a resposta, e ninguém é dono dela. Mas em relação ao referendo, e qual será o seu futuro em Portugal, não vamos saber resposta nenhuma; vamos avaliá-la, vamos interpretá-la. Porque para além da pergunta do referendo, sintetizada para ser "objectiva", tudo o mais continuará sujeito à subjectividade da política, que é o estado normal de uma comunidade.
Pensando bem, já nos vamos aproximando da razão pela qual o referendo tem tido uma história tão complicada em Portugal. Em princípio, todos nos queixamos de que os governantes se afastam do povo, que mandam e desmandam sozinhos, e até que contrariam o sentido do voto que lhes foi confiado. Mas quando, na prática, a decisão é devolvida por referendo ao povo, a adesão não é famosa. Parece que, afinal, preferimos a fluidez subjectiva da política, com os rodriguinhos e subentendidos a que já estamos habituados, do que a objectividade de uma pergunta fria, preto-no-branco, que só permite duas respostas possíveis.
Provavelmente, isto radica na história eleitoral portuguesa. Durante a ditadura, eram as eleições que estavam deturpadas do seu sentido. Quem votou em Humberto Delgado rapidamente soube que o seu voto de pouco valia. Quando finalmente se conquistou o direito de que o nosso voto contasse, habituámo-nos rapidamente a confiar nos resultados eleitorais, embora não tanto nos representantes eleitos. Sabemos por experiência que um governante eleito com determinado programa pode subverter esse programa, mas também sabemos que ele foi escolhido pela maioria.
O referendo é um caso muito diferente. Para resumir, digamos que numa eleição se escolhe, e muitas vezes se escolhe o mal menor. Num referendo decide-se o melhor que se pode. Claro que uma escolha é um tipo de decisão, e que para decidir é preciso fazer escolhas. Mas a natureza da eleição é mais próxima da ideia de escolher (no caso, escolher representantes) e a do referendo mais próxima da decisão concreta.
Num referendo, os governantes afastam-se momentaneamente da decisão e dizem-nos que a tomemos nós. É uma oportunidade única, mas também nos ensina algo sobre as responsabilidades das decisões e o peso que elas têm. Talvez por isso, até que nos habituemos vamos ouvir sempre alguém dizer que não nos compete a nós decidir, mas a eles políticos, uma vez que para isso foram escolhidos.
É paradoxal. Tomamos decisões a todo o momento no nosso quotidiano, mas há algo nas decisões políticas que nos traz desconforto. Percebemos, como dizia Espinosa, que a política se faz para as pessoas que realmente existem, para a nossa realidade imperfeita, e não para um mundo ideal. Num mundo ideal, cheio de gente ideal, não haveria política. Nem precisaríamos de tomar decisões.
E isto é tudo o que vos pode dizer um homem do passado. Historiador