Portugal Diário - 1 Fev 07

 

Aborto: Sócrates «dá sinais errados à sociedade»

«Se "sim" ganhar é um cheque em branco», defende Ferreira Leite

 

A antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite acusou quarta-feira à noite o primeiro-ministro, José Sócrates, de «dar sinais contrários aos interesses da sociedade portuguesa» ao defender a despenalização do aborto até às dez semanas, noticia a agência Lusa.

Em Lamego, durante uma sessão de esclarecimento sobre o referendo do próximo dia 11, promovida por defensores do «não», Manuela Ferreira Leite considerou que permitir a liberalização do aborto «é um sinal profundamente errado que o poder político dá à sociedade, um sinal de facilitismo, de um desprendimento de valores essenciais» ao seu equilíbrio.

A presidente da mesa do congresso do PSD frisou que José Sócrates, «como cidadão, pode ter as suas opiniões, mas como primeiro-ministro nunca poderia simplesmente defender esta lei sem que, simultaneamente, se comprometesse a executar todas as medidas essenciais para lhe dar seguimento». «Se o "sim" ganhar é verdadeiramente um cheque em branco», porque ninguém sabe o que acontecerá de seguida, considerou, aludindo, nomeadamente ao desconhecimento sobre as alterações no Serviço Nacional de Saúde e o tipo de apoios a dar às mulheres.

Governos têm obrigação de resolver problema dos abortos

Manuela Ferreira Leite admitiu que «é mais fácil para qualquer Governo, sabendo que o aborto é um problema muito complexo, resolver o assunto dizendo: façam à vontade, sem problemas, sem penalizações, à sua discrição».

Defendeu que «os Governos têm obrigação estrita de resolver o problema dos abortos» mas lamentou que o de José Sócrates se tenha decidido «pela forma mais fácil», que poderá evitar o aumento da natalidade, ao invés de o fomentar.

«Não é pelo facto de (o aborto) ser liberalizado que deixa de ser um drama», sublinhou Manuela Ferreira Leite, mãe de três filhos e já avó.

Aludindo aos argumentos dos defensores do «Sim» sobre o drama que é uma mulher ter se ir a julgamento por ter feito um aborto e ter a possibilidade de passar pela humilhação de uma prisão, a antiga governante considerou que, mesmo com a derrota do «não» essa situação vai continuar.

Secretismo conduz à clandestinidade

Mostrou-se convencida de que muitas mulheres que pretendam fazer um aborto «não vão aos serviços públicos, porque a sua decisão (de abortar) é verdadeiramente clandestina em relação à sociedade», uma vez que pretendem esconder à família que o fizeram.

«O dramatismo normalmente envolve o secretismo, e o secretismo normalmente conduz à clandestinidade», alertou.

Manuela Ferreira Leite criticou também a forma como está feita a pergunta do referendo, considerando que «significa evidentemente uma liberalização», ou seja, «o que se pretende é que até às dez semanas qualquer mulher possa abortar sem qualquer espécie de fundamento».