Público - 4 Fev 06

Civilizações

José Manuel Fernandes

É bom não esquecer que a história da Humanidade está cheia de grandes civilizações que desapareceram

Recentemente o historiador e ensaísta britânico Timothy Garton Ash interrogava-se sobre se não teríamos vivido, no final do século XX, um daqueles períodos em que uma civilização atinge o seu apogeu e, depois, entra em declínio. Notava então que muito do que hoje temos por adquirido - das liberdades cívicas ao bem-estar material - não só não é ainda um adquirido em boa parte do mundo como, por vezes, as sociedades recuam, deixam de ter meios para se reproduzir e perdem as suas referências morais e culturais. A história da Humanidade está, de resto, cheia de episódios de grandes civilizações que desapareceram ou que foram seguidas por séculos de apagamento e ignorância.
Este início de 2006, convém reconhecê-lo, não tem sido muito auspicioso, tendo acentuado muitas preocupações. À frente de todas está, sem dúvida, o braço-de-ferro com o regime iraniano em torno do seu programa nuclear e o presidente da AIEA, El-Baradei, até já reconheceu em Davos que o sistema global de monitorização da proliferação nuclear já entrou em ruptura e não é eficaz. Para mais a retórica das potências, mesmo o subir do tom de países como a França ou a Alemanha, não é de molde a sossegar ninguém, pois não se vislumbra como pode uma acção militar solucionar o problema. Entretanto a vitória do Hamas na Palestina, com uma votação que terá surpreendido os próprios palestinianos, reforçou a incerteza sobre o futuro de uma região que, semanas antes, perdera como político um dos seus líderes mais pragmáticos, audaciosos e, também, carismáticos, Ariel Sharon.
Nestas duas frentes as cautelas europeias e norte-americanas seguem a par com uma inquietação que até já colocou em segundo plano as preocupações com o Iraque, de onde até vêm sinais mais positivos, mas ainda fracos. Todos têm a noção de estar a atravessar um precipício precariamente equilibrados sobre um fio de arame, todos sentem que a mais pequena aragem pode ser perigosa. Ora a reacção incendiária alimentada por todo o mundo islâmico contra um conjunto de cartoons saídos num obscuro jornal dinamarquês mostra até que ponto pode ser verdadeira a alegoria de que o bater de asas de uma borboleta em Pequim pode desencadear uma cadeia de eventos capaz de terminar numa tempestade homérica a derramar-se sobre Nova Iorque.
Estes casos, aqueles que mais atenção têm concentrado, não devem contudo desviar as atenções dos riscos de desestabilização noutras regiões do planeta, desde uma América Latina onde os populismos estão em crescendo até uma Rússia sequiosa de voltar a mostrar o seu músculo de grande potência, passando por regiões de África e da Ásia onde a própria noção de Estado moderno está em crise aberta. Finalmente, como se isso não chegasse, adensam-se as nuvens sobre a sustentabilidade do crescimento económico, quer por escassez de recursos naturais, quer devido à existência de desequilíbrios preocupantes (nos Estados Unidos) ou de estagnações prolongadas (na Europa ou no Japão).
Uma convicção vai, porém, ganhando consistência: nos próximos anos viveremos num mundo onde a China e a Índia se afirmarão como grandes potências económicas, onde continuará a haver uma só grande potência militar, os Estados Unidos, onde o mundo islâmico prosseguirá no desempenho do seu papel de grande desestabilizador e de cujos radares a Europa tende a desaparecer. Esse pode não ser o mundo do anunciado "choque de civilizações", mas pode bem ser um mundo onde muitos dos nossos valores civilizacionais não mais se reconhecerão.
Pessimismo excessivo? Não, porque olhar um futuro possível ajuda a evitá-lo. Mas só se houver vontade de que tal aconteça e entendermos que temos carinho e orgulho na mais bem sucedida das civilizações.

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