Diário de Notícias - 23 Dez 08

 

Editorial

Como está Portugal na relação com Espanha

 

Os dois institutos nacionais de estatística de Portugal e Espanha voltam a publicar os dados que ilustram os principais aspectos da vida das respectivas populações. É de saudar mais esta manifestação de boa vizinhança descomplexada que vai tornando coisa natural olhar para o país do lado, mesmo quando a relação das populações é de um para quatro. A relação económica, essa, ainda é maior - de um para seis e meio - e não é de mais recordar que a publicação dos dois INE ibéricos mede Portugal face à oitava (quase sétima) economia mundial.

 

Face a edições anteriores, não há roturas na relação relativamente estável entre as condições de vida de um lado e do outro da fronteira. O nível de vida é mais alto em Espanha, já se sabe, e a sua qualidade resume-se no indicador-síntese da esperança média de vida à nascença: em Espanha vive-se mais dois anos e meio, em média, do que em Portugal.

 

Mas, em anos de grande variação económica, como aquele que vivemos, os dados destas compilações afiguram-se já desactualizados: a Espanha está mergulhada numa crise grave, com quebra forte no valor das casas e escritórios, com uma subida brusca do desemprego - novamente ameaçando chegar aos 17%, em fins de 2009 - e a sensação de que os anos passados de forte crescimento não voltarão tão cedo.

 

Por cá, como não conseguimos subir muito nos últimos anos, também sentimos uma queda muito menor. Resta ler em futuros compêndios dos INE quem na Ibéria soube sair melhor da actual crise mundial.

 

O ano que agora termina ficou marcado por várias catástrofes naturais. Mas as dez maiores crises humanitárias de 2008 devem-se, segundo os Médicos sem Fronteiras (MSF), à violência e à negligência dos governos dos países que enfrentam situações de emergência e dos outros actores políticos que neles operam. Na Somália, onde não existe um governo digno desse nome desde 1991, imperam grupos radicais islâmicos e piratas. Estes atacam até os navios do Programa Alimentar Mundial, que, para muitos somalis, é a única forma de obterem alimentos. A violência neste país africano levou os MSF a retirar todo o seu pessoal internacional do terreno. No Zimbabwe e na Birmânia, dominados por regimes do estilo ditatorial, os governos ignoram o sofrimento das pessoas contaminadas com cólera ou com sida e são suspeitos de desviar qualquer ajuda internacional. Na região sudanesa do Darfur, onde desde 2003 já morreram pelo menos 200 mil pessoas, o próprio Governo é suspeito de instigar à limpeza étnica. No seu relatório anual sobre as dez piores crises humanitárias, os MSF alertam que as zonas onde a ajuda humanitária pode chegar em segurança são cada vez menos e que isso coloca em risco a vida de milhões de pessoas. Ou seja, apesar do terremoto na China e das inundações na Birmânia, a maior parte do sofrimento não vem da natureza. Vem sim da natureza dos homens. É, no mínimo, escandaloso.