Público - 12 Dez 08

 

Moeda em tempos de crise
Luís Campos e Cunha

 

Será que este movimento de baixas das taxas de juro pode evitar a forte recessão? É quase certo que não

 

Desde a Austrália e Tailândia até à Suécia e Inglaterra os bancos centrais, incluindo o BCE, entraram em competição na baixa das taxas de juro. Apenas o Japão, com a taxa de intervenção em 0,3%, ficou quieto, mas praticamente todos os outros baixaram as suas taxas para níveis nunca vistos. A recessão já certa, a depressão como potencial e o fantasma da deflação levaram a esta corrida nos cortes. Será que este movimento de baixas das taxas de juro pode evitar a forte recessão? "É quase certo que não", é infelizmente a resposta.

 

Não tenho dúvidas que estes movimentos são mais do que adequados e necessários, mas a crise está longe de estar debelada ou sequer de poder ser debelada com estes cortes nas taxas. Não podemos esperar demasiado, neste momento, da política monetária, por várias razões.

 

Por um lado, em tempos normais a política monetária não é tão poderosa quanto alguns pensam. E, tal como em muitas políticas públicas, se forem mal conduzidas podem causar graves estragos, mas, se bem conduzidas, apenas propiciam o ambiente para o crescimento. No entanto, nada garantem, infelizmente.

 

Por outro lado, estamos a viver tempos de crise e os canais normais de transmissão da política monetária estão seriamente afectados.

 

O efeito mais positivo (e mais certo) da queda das taxas é o alívio para as famílias e empresas que, estando endividadas, vêem cair o peso mensal dos juros a pagar. Mas apenas na medida em que as taxas de mercado acompanhem as taxas do banco central. Há pouco mais de um mês, quando teve lugar um corte coordenado das taxas de praticamente todos os bancos centrais, referi que as taxas de mercado não cairiam necessariamente. E assim foi: a Euribor até subiu, porque o problema era de liquidez (quantidade), não de taxas (preço). Apenas passados uns dias, quando o BCE anunciou uma política de liquidez irrestrita, as taxas começaram a cair. Apesar de tudo, desta vez, o efeito nas taxas de juro de mercado será visível, mas duvido que o impacto seja igual ao corte do BCE: o risco, melhor, o medo, continua a dominar o mercado.

 

Um outro efeito que geralmente se obtém num corte de taxas é a depreciação da moeda e, desta forma, a dinamização das exportações e da economia. Mas as taxas de câmbio estão dominadas por outros efeitos de expectativas, pelo que não se alterarão significativamente por esse facto. Além disso, quando todos os bancos centrais estão a cortar as taxas, o impacto nos câmbios anula-se: simplesmente não podem todos, simultaneamente, depreciar a moeda.

 

Mais ainda, com o corte das taxas de juro dos bancos centrais (e baixando os juros do mercado) procura-se estimular o investimento. O investimento em habitação é particularmente sensível a tais políticas, mas, neste momento, o mercado imobiliário está dominado pelas expectativas de forte e sustentada queda nos preços. Assim sendo, é sempre vantajoso esperar mais algum tempo para comprar mais barato, pelo que este efeito domina qualquer descida dos juros.

 

Quanto ao investimento empresarial, este é pouco sensível às taxas de juro e, no contexto actual, também dominado pelas expectativas da recessão. A queda nas taxas de juro nenhum efeito terá no investimento empresarial e por muito tempo.

 

Por último, os bancos continuam com escassez de liquidez, ou seja, mesmo a procura de crédito para o normal funcionamento das empresas é difícil de satisfazer pelo sector bancário a qualquer preço.

 

Cada vez mais os bancos, em todo o mundo, parecem sapatarias do tempo da União Soviética: as botas eram baratas, mas o que não havia era botas para vender. Hoje, o crédito está barato, não há é crédito.

 

Por tudo isto, não podemos esperar grandes efeitos das recentes medidas de política monetária tomadas por todos os bancos centrais. Mas isto não significa que os cortes nas taxas não sejam necessários, bem pelo contrário. O fantasma da deflação assim o exige. A possibilidade de as taxas de inflação serem negativas é real: as taxas de inflação caíram em grandes economias, e num só mês cerca de um ponto percentual, o que é muito significativo. E, se somarmos o efeito do preço do petróleo, a possibilidade de deflação passa (quase) a uma certeza.

 

E, como mostram os últimos 15 anos do Japão, em depressão e deflação, a política monetária não existe e os problemas económicos são brutais e difíceis de combater. Com os preços a caírem, é sempre preferível adiar o consumo para mais tarde e, portanto, o crescimento é anémico (ou mesmo negativo) por longos períodos de tempo. Alguns políticos (cá e lá fora) rebentam de contentes, pois pensam que a política orçamental é a solução. Simplesmente também não é verdade. O Japão começou exactamente com a política orçamental nos primeiros dez anos de depressão e o resultado foi um desastre ainda maior. Nos anos 90 o Japão, com esta política, apenas conseguiu passar a ser o país mais endividado do mundo e baixou o rating internacional da sua dívida. Só quando atacou o problema onde ele estava - os bancos - conseguiu algum resultado real e ainda hoje muito frágil.

 

Estudar é, exactamente, aprender com os erros dos outros. É que aprender com a experiência própria é bom, mas é muito melhor aprender com a experiência alheia. E sai sempre mais barato, porque a experiência primeiro faz o exame e só depois dá a lição. Professor universitário