Público - 12 Dez 08

 

Educação em mundos paralelos e ilusórios
Nuno Pacheco

 

A ministra não cede, os professores também não. A ministra diz que a avaliação continua, os professores garantem que parou. São dois mundos paralelos, onde a ilusão pesa e a satisfação, na verdade, não existe

 

Ontem, como era de esperar, a reunião entre a ministra da Educação e a Plataforma Sindical não deu qualquer resultado. Um ano de penoso braço-de-ferro não levou, até à data, a nada que não fossem exibições de força. A ministra, embora admita alterar o modelo de avaliação no próximo ano lectivo, insiste que este ano tem que ser aplicado. Não o faz com nenhuma razão lógica, embora já se perceba que o processo será, no final, com toda a animosidade que gerou, um verdadeiro e inútil caos. Fá-lo, apenas, para não perder a face, ignorando que, no fundo, já não tem grande face a defender.

 

Os professores, por seu turno, depois das maiores manifestações de sempre e da maior greve de sempre, pouco mais têm a oferecer do que o maior abaixo-assinado de sempre, como ontem mesmo anunciou Mário Nogueira.

 

Dito assim, parece quase ridículo e arrisca-se a sê-lo. Nada, mas mesmo nada, contribuirá para mover um milímetro que seja as duas partes em contenda, se nada se alterar no terreno que a isso obrigue. E as actuais reuniões são, a esse título, profundamente inúteis. Ministra e professores repetem, lá dentro como cá fora, o que já se sabe, a ministra no pressuposto de que as suas aparentes cedências (simplificando, reduzindo, mascarando, a triste lei que tão entusiasmada defende) levariam os professores a recuar e, pelo menos este ano, a fazer-lhe a vontade; e os professores persuadidos de que as suas crescentes exibições de força levariam o Governo a ceder - ou até, como sucedeu no sector da Saúde (onde novos problemas agora se avizinham, com a nomeação governamental de 74 directores executivos para os agrupamentos de centros), a "ceifar" a ministra.

 

Nada disso acontecerá, e não apenas por teimosia. Governo e professores já foram longe de mais para qualquer recuo e as razões expostas migraram para o domínio da ficção. A ministra vive no seu mundo, que imagina perfeito, com uma lei justa, professores que cumprem, escolas que funcionam. Os professores vivem noutro, onde a amargura e a revolta se confundem, onde as burocracias da avaliação são ignoradas, onde as escolas desafiam o ministério e rejeitam as suas imposições. Estes dois mundos, paralelos e ambos insatisfeitos, coabitam numa mesma realidade: o sistema de ensino português. E este, com mais um ano a dilacerar-se em inutilidades, não consegue beneficiar de forma alguma aqueles para quem existe, os alunos. Talvez futuros professores. Ou talvez futuros ministros. Um empenho real na qualidade do ensino é bem mais do que saber, como mil vezes já se disse, se deve haver mais professores classificados com "bom" e outros com "suficiente", de modo a reduzir algumas casas nas folhas dos ordenados. É saber o que fazer para que haja mesmo professores bons e cada vez melhores. E não pactuar com a ideia de que ensinar é apenas mais uma tarefa, entre mil papeladas.

 

A verdade é que o sistema de ensino se encontra, há muito, num atoleiro que apenas à superfície se deixa revolver por tais guerras. Já teve muitos titulares e, da experiência conhecida e feita, pouco disso beneficiou. Que venha, um dia, a ganhar com uma enorme reviravolta é o que se deseja. Talvez assim o problema da avaliação se resolva. E talvez se consigam resultados, não falsificações, à altura do que o futuro exige.