Diário de Notícias  - 11 Ago 08

 

A pose convencional da subversão
João César das Neves

 

Toda a gente sabe que a sociedade é conservadora, mesquinha e bolorenta. Toda a gente sabe que os artistas são rebeldes, provocadores e atrevidos, chocando de frente com os preconceitos tacanhos da população boçal. Mas aquilo que toda a gente sabe costuma ser um dos tais preconceitos tacanhos. Será que estes dois também são?

 

Houve tempos em que a arte era subversiva e os autores se arriscavam ao criar uma obra. Quando Molière apresentou L'École des Femmes em 1662 ou Beaumarchais Le Marriage de Figaro (1778) atreveram-se muito. O simples génio da Eroica de Beethoven (1805) ou Los Fusilamientos del Tres de Mayo, de Goya (1814), feriu a época. Mas o tempo e a repetição foram reduzindo o abalo. O Bolero, de Ravel (1928), ou a Guernica, de Picasso (1937), chocaram menos do que pretendiam. Hoje a subversão pouco mais é que mera pose convencional.

 

Realizadores como Spike Lee ou Michael Moore, por exemplo, costumam fazer filmes pseudocontroversos, denunciando e atacando alegados preconceitos da sociedade. Mas, em vez de polémica e incómodos, essa sociedade dá-lhes glória, fortuna e influência por essa denúncia e ataque. Merecerá tanta atenção e publicidade um género hoje multiplicado até à náusea?

 

Já vai longe o tempo em que esses choques eram inesperados. Se, por brevidade, nos limitarmos ao caso dos hábitos sexuais, tema actual e preferido dos artistas, vê-se logo como as nossas películas repetem temas estafados e agridem os netos dos primeiros agredidos.

 

Nos anos 60 e 70 grandes realizadores testaram os limites da pedofilia (Lolita, de Kubrick, 1962, ou Morte a Venezia, de Visconti, 1971), prostituição (Midnight Cowboy, de Schlesinger, 1969, ou Taxi Driver, de Scorsese, 1976), sexo explícito (Ultimo Tango a Parigi, de Bertolucci, 1972, ou Ai No Corrida/O Império dos Sentidos, de Oshima, 1976) ou perversão (La Grande Bouffe, de Ferreri, 1973, ou Saló, de Pasolini, 1976), entre tantos outros. Essas polémicas são já bem velhinhas!

 

Nessa altura podia falar-se com propriedade de controvérsia. Hoje é rotina.

 

Filmes supostamente chocantes, como Million Dollar Baby (2004), sobre a eutanásia, ou Brokeback Mountain (2005), sobre a homossexualidade, só ganham notoriedade efémera nos Óscares.

 

Repete-se a pose bafienta de atacar severamente uma eventual sociedade puritana e moralista, perante o aplauso generalizado da sociedade real.

 

Onde estão os tais puritanos atacados?

 

A sociedade actual gosta de ser chocada e agredida, e nunca se farta de obras dessas. Filmes, canções, novelas, séries televisivas exploram enjoativamente as controvérsias e polémicas sobre todos e cada um dos aspectos da nossa cultura, perante a aclamação extasiada da mesma cultura. Vivemos num tempo que adora odiar-se a si mesmo.

 

Como pode uma sociedade odiar-se a si própria? Como na esquizofrenia, existe um processo de transposição. Ao detestar a sua cultura e comunidade, cada um assume-se externo a ela. Assim, apesar de pertencer ao alvo agredido, desvia o ataque para outros, através do mito da tal sociedade conservadora e bolorenta. Mas está a desprezar-se a si mesmo sem dar por isso.

 

Parece sentido crítico, mas não passa da institucionalização do menino respondão e malcriado, que injuria, ataca e discute por sistema. Dignificou-se a censura destrutiva, agressão gratuita, grosseria de taberna. Chocar, denunciar, incomodar é tudo o que se faz. E faz-se até à exaustão. Qual a utilidade disso? A sociedade fica melhor assim? É tão fácil destruir! Difícil mesmo é construir sobre os escombros, tarefa de criadores, coisa de que os artistas se demitiram.

 

Este vício é tão absorvente que a tarefa da verdadeira crítica social fica muito mais difícil. Se os nossos artistas quisessem mesmo chocar preconceitos, atacariam esta ridícula mania de se chocar a si mesmo. Se existe hoje preconceito esmagador é o de combater os preconceitos.

 

Um filme mesmo original e inesperado seria feito pelo realizador que apontasse a câmara para o seu espelho e se caricaturasse a si mesmo.

 

Faz tanta falta um Molière ou Beaumar-chais!