Diário de Notícias - 4 Ago 06

Governo mantém 'spot' considerado "abusivo"

Paula Sá

 

O Ministério da Administração Interna (MAI) vai manter a campanha publicitária que tem como tema "todos os anos a velocidade nas estradas vitima um avião cheio de crianças", apesar da celeuma que ela está a causar. A Prevenção Rodoviária Portuguesa e a TAP consideraram-na "abusiva" e "chocante".

"O que me choca é o número de vítimas na estrada, o número de crianças que são vítimas", disse ontem o titular da Administração Interna, António Costa, interpelado em Viseu sobre a polémica. O ministro escusou-se a comentar o teor dos spots de rádio e televisão e dos outdoors. "Não sou técnico publicitário", argumentou.

O spot televisivo, que começou a ser divulgado a 28 de Julho, numa parceria MAI/Galp Energia, retrata a entrada de uma série de crianças num avião, a porta fecha-se, um rosto infantil surge na janela oval e o aparelho levanta voo. E a mensagem é lida: "Todos os anos a velocidade nas estradas vitima um avião cheio de crianças."

José Manuel Trigoso, director da Prevenção Rodoviária Portuguesa, insurgiu-se ontem contra o anúncio e considerou a ideia "muito infeliz", já que "não faz sentido comparar o transporte aéreo, o mais seguro do mundo, com o sistema rodoviário". O número de crianças evocado também lhe causou perplexidade. Segundo José Manuel Trigoso, "em 2004 morreram 42 crianças (dos zero aos 14 anos) vítimas de acidentes de viação, enquanto que em 2005 o valor baixou para as 25 vítimas mortais".

Vários sindicatos ligados à aviação já pediram o cancelamento da campanha e a TAP fez um protesto formal junto do MAI.

A agência publicitária que criou a campanha, a BBDO Portugal, esclareceu ontem o DN que esta foi encomendada pela Galp Energia, que pretendia a criação de uma campanha de prevenção rodoviária que combatesse o problema do excesso de velocidade nas estradas portuguesas. "A campanha visa responder a um problema grave, que afecta directa ou indirectamente todas as famílias, com custos elevadíssimos para a sociedade, que provoca mortes todos os dias e que carece ser atacado com a mesma intensidade", refere a BBDO.

A agência acrescenta que a abordagem "intrusiva" e a mensagem de "desconforto" são as mais eficazes. "O anúncio não remete para a segurança aérea, o avião é utilizado unicamente como metáfora."

A BBDO diz ainda que a campanha foi discutida com o Ministério da Administração Interna e a Galp Energia e que o número de crianças avançado, as tais 250, foi retirado do Relatório da Sinistralidade Rodoviária de 2005.

Fonte do MAI disse ao DN que a campanha foi oferecida pela Galp Energia ao Ministério da Administração Interna, sem custos para o Estado. O MAI terá disponibilizado um milhão de euros para comprar os espaços publicitários nos vários órgãos de comunicação e nos outdoors.

A Galp Energia encomendou a campanha à BBDO, que a testou junto de um focus group, um conjunto de cidadãos que aprecia a mensagem, que a considerou muito eficaz.

O presidente da Prevenção Rodoviária tem opinião diversa. "Sensibilizar é tempo perdido, pois o importante é o desenvolvimento de actividades que levam a acções concretas". Como a formação escolar, comunicação pedagógica e formação técnica.