Portugal Diário - 3 Ago 06

Campanha é de «mau gosto»

Tatiana Alegria e Sara Marques

 

Segurança na estrada: Prevenção Rodoviária Portuguesa e sector da aviação atacam iniciativa do Governo e da Galp. TAP apresenta protesto formal. «O avião é o meio de transporte mais seguro que há. É gratuito envolvê-lo neste contexto»

«Mau gosto», «pouco rigor» e «exagero» foram algumas das expressões utilizadas por especialistas do sector e trabalhadores da área da aviação em relação à recente campanha de segurança rodoviária lançada pelo Ministério da Administração Interna e pela GalpEnergia.

A campanha, divulgada na televisão, na rádio, em outdoors e nos postos de abastecimento da Galp, utiliza a imagem de crianças dentro de um avião. «Todos os anos a velocidade nas estradas vitima um avião cheio de crianças. Este ano ajude-nos a evitar uma tragédia. Reduza a velocidade», é a mensagem que acompanha o anúncio. Para ver o vídeo, clique aqui

José Miguel Trigoso, secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, disse ao PortugalDiário que o anúncio é «pouco rigoroso» e «exagerado».

O responsável explicou que no anúncio aparece um avião Jumbo, aparelho que leva centenas de pessoas, mas, na verdade, «em 2004 morreram 42 crianças (dos 0 aos 14 anos) nas estradas portuguesas e em 2005 morreram 27. Incluindo passageiros de veículos e peões». Logo «é claramente exagerado e desproporcionado».

Para José Miguel Trigoso, esta «é mais uma campanha de sensibilização geral, mas não é o que Portugal precisa neste momento. As pessoas estão sensibilizadas e isso nota-se na diminuição das mortes na estrada», explicou o responsável que adiantou que agora são precisas «acções directas e pedagógicas».

Um avião num anúncio sobre a estrada?

Esta campanha «deixou as pessoas que trabalham no sector da aviação indignadas», afirmou o porta-voz da TAP, António Monteiro, ao PortugalDiário. A companhia aérea apresentou um protesto formal junto do ministério tutelado por António Costa.

«O avião é o meio de transporte mais seguro que há. É de mau gosto e gratuito envolvê-lo neste contexto. Nem é útil associar o número de crianças [vítimas de acidentes de viação] a um acidente aéreo», argumentou António Monteiro.

Quatro sindicatos ligados à aviação, (o Sindicato dos Trabalhadores da Aviação e Aeroportos, Sindicato dos Quadros da Avião Comercial, Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Afins e Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Aviação Civil) também lançam duras críticas à campanha e pedem o cancelamento dos anúncios.

«Para além de macabro, não entendemos por que motivo para fazer uma campanha de prevenção rodoviária se utiliza (com mau gosto e mal feito) um avião (no início um Boeing 737 e no fim um B747) para prevenir acidentes que são causados pró-carros, autocarros, motocicletas», lê-se no comunicado enviado esta quarta-feira e publicado esta quinta-feira no jornal Público.

O PortugalDiário não conseguiu obter uma reacção da GalpEnergia e do Ministério da Administração Interna em tempo útil. No dia da apresentação da campanha, há uma semana, o ministro António Costa explicou porque é que os anúncios incidiam sobre as crianças: «Tem um clique emotivo, que é a questão das crianças vítimas de acidentes de viação. O objectivo é reforçar a atenção dos condutores para uma condução correcta, numa altura em que muitas famílias vão para férias, com as suas crianças».

Problema é que é «exagerado»

«Não é a mensagem que é exagerada e desproporcionada», mas sim o problema. 256 crianças entre mortos e feridos graves parece-nos um número bastante mais exagerado e desproporcionado do que a mensagem encontrada para chamar a atenção das pessoas para a estatística», disse ao PortugalDiário fonte da BBDO, empresa que elaborou a campanha.

A empresa explicou que «o objectivo não é causar medo às pessoas que viajam de avião, é causar medo a quem acelera demais na estrada. Podia ter sido um petroleiro ou um autocarro, foi o número que ditou o meio de transporte. Acreditamos que as pessoas entenderão a metáfora», adiantou.