Público - 01 Abr 08

 

Os cavalos libertaram-se. Os nossos filhos ainda não
Helena Matos

 

As escolas públicas, tal como as privadas, têm de ter poder para contratar, despedir, castigar e se organizar

 

Não sei quantos portugueses conheceram a cooperativa chinesa de Tatchai, mas a verdade é que lhe foi dedicada uma exposição no que devia ter sido a Feira Nacional do Cavalo, de 1974, na Golegã. Nesse ano, as coudelarias foram proibidas de apresentar qualquer sinal exterior que as distinguisse umas das outras e para ilustrar as maravilhas da igualdade lá estava a exposição sobre a comuna de Tatchai. Mais ou menos pela mesma época em que os equídeos ribatejanos eram iniciados nas vantagens do igualitarismo através dos ensinamentos da comuna de Tatchai, escreviam-se livros e livros sobre a escola igualitária, a escola lúdica e a morte da escola burguesa. Tatchai é precisamente uma das referências utilizadas pelos pedagogos dos anos 70, quando pretendiam ilustrar a forma como a República Popular da China levara mais longe que qualquer outro país a eliminação das diferenças entre as escolas frequentadas pelos filhos dos burgueses e pelos filhos dos operários. Contudo, nem em Tatchai infelizmente se conseguira instalar o absoluto igualitarismo, pois como explicava, em 1977, numa revista da UNESCO, o agrónomo e grande teorizador da escola não burguesa e da antiglobalização, René Dumont, na região de Tatchai ele bem vira, num estaleiro, como os camponeses eram mais produtivos que os quadros técnicos.

 

Diga-se em abono da verdade que, em 1977, já os cavalos portugueses tinham conseguido libertar-se das teses da comuna de Tatchai e as coudelarias surgiam devidamente identificadas na feira que nesse ano, na Golegã, voltou a ser dedicada ao cavalo. Infelizmente na pedagogia os ensinamentos de Tatchai têm sido constantemente reactualizados: não só o igualitarismo permanece como dogma, como o próprio Ministério da Educação se concebe à imagem de um grande timoneiro que fez da escola o espaço de aplicação das suas teses de experimentalismo social. Em nome da igualdade acaba-se com o ensino artístico, diminui-se o peso das disciplinas associadas à transmissão de conhecimentos, como as línguas ou a matemática, e aumenta-se a carga das actividades doutrinárias como a área de projecto. Se no final os resultados dos exames e provas não são os anunciados, alteram-se as regras.

 

O ensino público obrigatório tornou-se uma gigantesca máquina de propaganda. Os eleitos do sistema conseguem de facto viver na e da propaganda, mas são os primeiros a falhar no confronto com a realidade: os professores que gozam de destacamentos que os levam para a burocracia ministerial ou para experiências pedagógicas simpáticas e tranquilas, como o Parlamento Europeu dos Jovens, quando regressam às escolas, como aconteceu no Carolina Michaelis, acabam a não resistir. A outra saída possível é pela porta da baixa, sobretudo da baixa psiquiátrica: as depressões tornaram-se a forma mais fácil e rápida de os professores evitarem os problemas que, em boa verdade, também não têm poderes para resolver.
É preciso que se note que os professores, os funcionários e as instalações das escolas privadas não são, em média, melhores que as das públicas. Os alunos também não e convém repetir este dado, pois agora, para justificar o falhanço da "pedagogia Tatchai", procura atirar-se com as culpas do desastre para cima dos filhos do povo, em nome do qual as elites fizeram precisamente muitas das alterações que mais degradaram a escola. Acrescente-se ainda que cada aluno, no ensino obrigatório público, custa aos portugueses em média cinco mil euros por ano. O mesmo que se pagava num bom colégio antes do descalabro do ensino público ter feito crescer as mensalidades e as listas de espera nos privados.

 

Porque são então melhores os resultados do ensino privado? E sobretudo por que razão os casos graves de indisciplina só parecem acontecer nas escolas públicas? Pela simples razão que no privado, onde todos estes problemas também surgem, quem dirige as escolas tem poder para evitar que se repitam. Castigar um aluno numa escola pública é um romance aburdo-administrativo, mas ainda é um romance maior castigar um professor. Por exemplo, em 2005, um professor colocado na zona de Gondomar foi acusado pelo Ministério Público de ter abusado sexualmente de algumas alunas, com idades compreendidas entre os 13 e os 16 anos. No ano lectivo 2007/2008 o mesmo professor foi colocado na mesma escola, pois o docente ainda não foi julgado, logo o seu registo criminal está limpo. "Até o tribunal tomar uma decisão, a DREN não tem qualquer poder", explica a directora regional de Educação, a propósito deste caso.

 

A justiça é uma coisa, a escola é outra. As escolas públicas, tal como as privadas, têm de ter poder para contratar, despedir, castigar e se organizar. Não faz sentido que dependam dum concurso nacional para terem professores e muito menos que, como acontece neste caso, estejam pendentes duma alteração dum registo criminal.

 

O Ministério da Educação é uma espécie de museu vivo do tempo em que Tatchai, seja lá isso onde for, funcionava como uma luz inspiradora para os equídeos (e quiçá também para os asinos e muares) e para os teóricos da pedagogia. Portugueses e não só. O resultado foi sempre desastroso. Jornalista